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ILUSTRADO
Sábado, 02 de Outubro de 2010, 18h:55

CRÍTICA DE CINEMA

Gordon Gekko de Oliver Stone está de volta

Luiz Carlos Merten crítico respeitado nacional e internacionalmente avalia dois filmes que estão em cartaz em Cuiabá

Por Luiz Carlos Merten
Da Reportagem
São Paulo - Há 23 anos, o diretor e roteirista Oliver Stone criou um personagem emblemático. Gordon Gekko não apenas deu o Oscar para Michael Douglas. Desde que ele bateu na tela, nas pegadas da crise que assolou o sistema financeiro mundial em 1986, o público e os críticos imediatamente deram-se conta de que se tratava de um ícone da nova ‘América’ de Ronald Reagan. O filme era o que os norte-americanos chamam de ‘morality play’. Gekko era superado pelo discípulo, um predador econômico ainda mais astuto. Ia preso no final, já que, hollywoodianamente, nenhum vilão, por mais sedutor que seja, tem direito de escapar incólume. Gordon Gekko está de volta. Na abertura de "Wall Street - O Dinheiro nunca Dorme", ele está deixando a prisão. Volta para retomar seu lugar, e se vingar. No processo, ganha um novo discípulo, interpretado por Shia LeBeouf, casado com a filha (Carey Mulligan) que quer distância do pai. Gekko vai seduzir o garoto, armar novo golpe. Shia vai cair como um patinho, o que terá reflexos na união com Carey. E como vai reagir papai? Não existe cinema de Hollywood sem segunda chance, você vai ver. Quando conversou com o repórter, sobre "Ao Sul da Fronteira", Oliver Stone não se furtou a comentar também "O Dinheiro Nunca Dorme". Para facilitar, é "Wall Street 2". Ele contou que sempre foi muito cobrado, com Michael Douglas, para fazer uma sequência daquela história. "Se demorei todo este tempo - mais de 20 anos -, foi porque me faltava um elemento deflagrador." A crise financeira de 2008 foi o estopim que lhe faltava. Stone recebeu uma saraivada de críticas por "Ao Sul da Fronteira". Embora, como ele diz, o filme seja sobre os presidentes da América bolivariana, e não apenas Hugo Chávez, sua recusa em demonizar o dirigente da Venezuela o transformou em persona non grata de muita gente. Pode-se criticar Chávez e até considerá-lo um clown, mas como todo palhaço isso lhe dá margem para dizer coisas sérias, que não devem ser desconsideradas. Após o ‘apoio’ a Chávez, as críticas de Stone ao capitalismo talvez o transformem num pária, o tipo de cineasta de ‘esquerda’ que a crítica (de direita?) só pensa em exorcizar. "O sistema (econômico) é desumano, imoral", diz Stone. Por isso mesmo, no começo, o personagem mais íntegro da história - interpretado por Frank Langella, comete suicídio. Mais tarde, Stone vai criar uma das cenas mais impressionantes (a mais?) de sua carreira. Ele já fez filmes sobre drogas, guerras. Desta vez filma o equivalente norte-americano do último baile do império. Você já ouviu falar do famoso baile da Ilha Fiscal, em que a aristocracia, reunida em torno de D. Pedro II, dançava enquanto raiava a República. No filme de Stone, é um baile beneficente, para arrecadar fundos numa dessas campanhas humanitárias com que os poderosos lançam migalhas aos necessitados. A câmera descreve um amplo movimento pelo salão. O foco está nas orelhas das mulheres. Velhas, jovens, belas, horrorosas, todas ostentam pingentes, diamantes tão valiosos que dariam para cobrir o custo de acabar com a fome do mundo. "É o momento mais irônico do filme", admite o diretor. O fato de, desta vez, o punido ser o personagem de Josh Brolin, que foi seu George W. Bush - em W - , tem algum significado especial, uma crítica, talvez? Ele ri - "Não! Nunca pensei nisso. Ele é um grande ator e eu queria lhe ofertar outro papel que o levasse a testar seus limites.”

Edição EDIÇÃO 16962




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