ILUSTRADO
Sábado, 09 de Outubro de 2010, 11h:52
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MÚSICA
Gal Costa relança melhores álbuns e inédito
Gal revisita seus sucessos e falou sobre o inescrupuloso mundo das rádios comerciais. Também aproveita para lançar um inédito com Caetano
Lauro Lisboa Garcia
Agência Estado
São Paulo - Os fãs saudosos, que se ressentem da ausência de Gal Costa nos palcos e nos discos, podem festejar. A grande cantora está de volta. Alguns dos melhores álbuns de sua carreira e um CD duplo de faixas raras (reunidos na caixa Gal Total), além de um disco de inéditas de Caetano Veloso, com produção dele e Moreno Veloso, recolocam a musa tropicalista no cenário brasileiro. Nos últimos anos, o fã-clube de Gal se dividiu entre a adoração dos eternamente devotos e os céticos, que oscilam entre a aceitação e o desdém, e ela tem feito mais shows fora do País do que aqui. Seu álbum mais recente, Hoje, é de 2005, e como os anteriores na década não teve grande repercussão de público e crítica. Mas sua voz continua firme e penetrante, e ela, que completou 65 anos no dia 26 de setembro, está mais magra, animada e rejuvenescida, fala como se não sentisse tanto a passagem do tempo em certos aspectos. "Canto as músicas no mesmo tom em que gravei. Quando estava fazendo Hoje com César Camargo Mariano ele me dizia que minha voz parecia de uma menina", lembra a sorridente Maria da Graça. Muitas estrelas da geração de Gal tem encontrado dificuldade em lidar com as mudanças de mercado, os esquemas de produção sem grandes luxos, decorrentes da crise das gravadoras e a decadência da venda de CDs. "Pra mim não é difícil alugar um estúdio e bancar um disco, existem várias formas. Durante alguns períodos da minha carreira houve uns hiatos. Quando fiz o Plural (1990) vinha de um tempo sem fazer nada, porque acho que isso é importante também. Você não tem de estar toda hora na mídia. É que hoje, com essa coisa de internet, globalização, isso tudo, se você fica um mês sem aparecer neguinho acha que você acabou", diz. "Eu estava trabalhando fora do Brasil, recebi muitos convites e fiz tudo o que quis. Fiz aqui também alguns eventos fechados." No Brasil ou no exterior, Gal acha que a situação realmente é difícil para quem não faz música ultracomercial. "Hoje quase não tem mais loja de discos, nem aqui nem em Nova York. As pessoas estão meio perdidas. Além de as gravadoras não terem dinheiro, não sabem pra onde vai o mercado fonográfico, e quando investem é em coisas descartáveis. Há milhares de cantoras, americanas inclusive, feitas para fazer sucesso. Mas a gente viveu a era do sonho, e isso meio que acabou. Você ter uma bagagem de vida, de experiência, você ver uma pessoa vir no palco fazer uma coisa e ela trazer uma história ali - isso é que falta." Vergonha - Quanto às rádios, que "tocavam tudo" - incluindo vários lados B de seus LPs e compactos incluídos na caixa, como Presente Cotidiano (Luiz Melodia) e De Amor Eu Morrerei (Dominguinhos / Anastácia) -, ela acha hoje "uma vergonha". "Antes tocavam até cinco músicas de um LP. Fantasia (1981) teve quatro sucessos de rádio. Hoje você tem de pagar R$ 300 mil pra uma música ser executada cinco vezes por dia em cada rádio. É o que me dizem. Que é isso, gente? Isso é cultura." No Rio, há tempos ouvem-se rumores de que Gal havia recusado um convite de Chico Buarque para acompanhá-lo na turnê do CD Carioca e outro de João Gilberto para gravar um disco com ele. "Quem te falou essas coisas? Não sei de nada disso. Imagina se eu iria recusar convites de Chico e João, que eu amo", desconversa a cantora. Ela diz ainda que deseja um dia lançar em DVD o show Fa-tal, que foi gravado por Leon Hirszman. No mais, olhando no retrovisor, diz que se reconhece em todas as fases reunidas em Gal Total, sem arrependimento. Um disco só com inéditas de Caetano Gal Costa selou um impecável songbook de Dorival Caymmi, outro de Ary Barroso que dividiu opiniões, além de um álbum duplo ao vivo dedicado a Tom Jobim. Sugerida pelo repórter a gravar os baianos Assis Valente e Batatinha, ela diz que tinha pensado em mergulhar no cancioneiro de Valente. Mas nada mais natural e confortável que se dedique a cantar apenas Caetano Veloso, o autor de quem mais registrou canções e com quem mais tem afinidade. Gal concorre com Maria Bethânia nessa que é a mais intensa parceria entre cantora e compositor na história da música moderna brasileira, com uma infinidade de canções exclusivas e interpretações definitivas. "Caetano é quem melhor compõe pra mim e quem melhor me entende", diz Gal, que lançou o primeiro álbum em parceria com o conterrâneo, Domingo (1967), iniciou a carreira na Bahia e veio para São Paulo com ele, deflagrando o movimento tropicalista. Depois Caetano fez a direção musical do antológico Cantar (1974), mas antes já tinha dado sugestões para Índia (1973), que iria produzir. "Caetano já compôs seis canções e está fazendo o restante pra esse disco novo. Estive com Moreno na Bahia, pegamos as tonalidades, ficamos quatro horas juntos tocando violão e cantando. Que pessoa sensível e maravilhosa que ele é", diz a cantora. "O trabalho está bem no começo, então não tem muito o que falar." O CD sai pela Universal, sem previsão de data.