ILUSTRADO
Quinta-feira, 26 de Dezembro de 2013, 19h:54
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CERCADO
Freud no divã do mundo
Romance retrata pai da psicanálise com vida menos exemplar. Quadrinhos retratam hipotética relação de Sigmund com filho
As informações conhecidas sobre Minna Bernays (1865-1941), cunhada de Freud, são restritas a poucas fotos e cartas, além de relatos de Martin, filho do psicanalista, na biografia Freud: Man and the Father. Era uma mulher bonita e culta, que Freud definia como sua maior confidente. Jovem, foi morar com a irmã Martha e o cunhado, que tinham seis filhos. Viveu 40 anos com a família em Viena. Os rumores sobre seu caso com Freud surgiram em 1957, quando o psicólogo Carl Jung (1875-1961) revelou que, 50 anos antes, Minna lhe falara da culpa que sentia por ser amante do marido da irmã. Outras pistas vieram depois. Em 2006, foi localizado um registro de hotel na Suíça em que os cunhados aparecem como Freud e mulher. O romance A Amante de Freud, de Karen Mack e Jennifer Kaufman, narra a história de amor de uma sofrida Minna. As autoras dizem que a ideia era saber se o caso influenciou a obra de Freud. Saber que era amante da cunhada muda o modo como vemos o que escreveu, incluindo sobre a culpa como o preço que pagamos pela civilização, diz Mack. Para o professor da Unicamp Márcio Seligmann-Silva, autor de estudos sobre Freud, o caso com Minna não seria tão relevante assim. Há quem diga que Freud cometia incesto similar ao de sua teoria do complexo de Édipo, mas é diferente ter relação com os pais e a cunhada. Dizer que isso revoluciona a psicanálise é exagero. No máximo, ele não é a figura imaculada que se pensava. A Amante de Freud teve recepção morna da crítica internacional, diferentemente de A Irmã de Freud. O romance de Goce Smilevski, de 2010, venceu o Prêmio da União Europeia e foi traduzido em 30 países. É narrado por Adolfine, definida por Freud como a mais doce de suas cinco irmãs. Enquanto as outras irmãs fizeram família, ela ficou sozinha. O silêncio sobre ela era tão grande que o romance não poderia existir em outra voz, diz Smilevski. Poucas pistas vieram da biografia de Freud assinada por Martin. No texto, o filho do psicanalista mostra que a tia era rejeitada pela família. Smilevski a coloca relembrando a relação com o irmão e questionando suas teorias. Mas o que chamou a atenção foi o ponto de partida do livro: o momento, em 1938, em que Freud foge da Viena ocupada por nazistas, levando até o cachorro, mas deixando para trás as irmãs quatro das cinco morreriam em campos de concentração. As razões pelas quais ele as excluiu da lista de nomes que poderia ajudar a sair de Viena são um mistério. Deixei em aberto, diz o autor. O psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima rejeita a ideia de abandono: Ele não tinha poder para levar as irmãs, embora tenha tentado depois. O pai da psicanálise morreu um ano depois, dias após o início da Segunda Guerra, sem saber o destino delas. Quando A Irmã de Freud saiu na França, a psicanalista Élisabeth Roudinesco criticou-o por retratar um Freud repulsivo. Smilevski diz que todos somos, de certo modo, insensíveis. Freud não é exceção. A insensibilidade é clara em alguns de seus estudos, como o caso Dora. O caso é considerado um fracasso de Freud, que insistiu em ver desejos ocultos na rejeição da jovem ao assédio de um homem mais velho. HUMOR A insensibilidade rende as melhores piadas de As Traumáticas Aventuras do Filho de Freud, de Pacha Urbano, que escolheu o primogênito Martin como protagonista. O Freud das tiras vê intenções fálicas nas brincadeiras do filho (Não tem graça andar por aí atirando pênis nas pessoas, diz ao menino, que brinca de arco e flecha) e dá broncas severas além da conta (Estou pensando seriamente em castrá-lo, garoto). O carioca Urbano, 35 anos, estuda Freud há dez, mas publicou a primeira tira em 2012, no site Filho do Freud. Pensei como devia ser um saco ser filho dele. Quis fazer humor com a teoria, mais que com as pessoas, diz. Retratado sempre de perfil, com uma expressão de mau humor e dando baforadas no charuto, Freud acaba se saindo simpático nas tiras pelas mesmas razões que soa antipático nos romances. Talvez ele mesmo soubesse explicar isso.