ILUSTRADO
Segunda-feira, 26 de Maio de 2008, 20h:23
A
A
CINEMA
Festival na metade
Evento prossegue até o próximo sábado com muita coisa ainda a ser conferida. Público tem comparecido em peso nas sessões noturnas
Cláudio de Oliveira
Da Reportagem
O 15° Festival de Cinema e Vídeo de Cuiabá está bombando. E a gíria se justifica pelas salas cheias e pelas filas para as sessões, especialmente as noturnas. É bom ver o cinema de qualidade recebendo as devidas atenções. Nesta terça-feira o dia começa cedo. Além do já tradicional bate-papo no hotel Paiaguás, há duas sessões da Escola vai ao Cinema uma às 10 e outra às 14 horas. Também às 14 horas os espectadores poderão acompanhar a exibição da Mostra Curta Mais no Centro Cultural da UFMT que contará ainda com uma mesa-redonda: Contemporaneidade, movimentos sociais, juventude, tribos urbanas e a poética das ruas. A mediação é de Ana Paula SantAna(mestranda). A mesa conta com a participação de Ariel Uliana Junior, Maurília Valderez Amaral e Marília Beatriz de Figueiredo Leite, um time imperdível de pensadoras da contemporaneidade. Também na UFMT, no Museu de Arte e Cultura Popular(MACP), haverá o lançamento da Coletânea Memória e Mito do Cinema em Mato Grosso de Luiz Borges que abre inclusive a Exposição Fotográfica 100 Anos de Cinema em Mato Grosso. No Multiplex Pantanal as exibições começam às 18 horas. O primeiro filme é um documentário do diretor Marco Altberg que está fora de competição mas que desvela uma parte significativa da história do Brasil. Panair do Brasil foi exibido na mostra É Tudo Verdade do ano passado e conta como foi o fim da empresa que era a rainha dos céus do Brasil. Para se ter uma idéia foi a Panair quem construiu os aeroportos de Fortaleza, Natal, São Luiz e Recife e era ela quem auxiliava no controle do tráfego aéreo brasileiro. A empresa era tão forte que incomodou a ditadura militar que decretou sua falência de maneira sui generis. As credenciais do Marco realmente justificam o esforço de correr cedo para o Pantanal. Ele foi um dos fundadores do Canal Brasil e da Associação Brasileira de Produtores Independentes de TV, da qual é presidente. Foi presidente da ABD (Associação Brasileira de Documentaristas), de 1974 a 1975, e da ABRACI (Associação Brasileira de Cineastas), de 1990 a 1991, e vice-presidente do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica, de 1992 a 1993, e diretor de operações da Embrafilme, de 1989 a 1990. O primeiro filme na competitiva de longa(MCL) vem na seqüência do doc, Meu nome é Dindi do diretor estreante em longa Bruno Safadi. As críticas ao filme que ganhou o prêmio do júri em Tiradentes-MG são para lá de favoráveis. Carlos Reichenbach incensa Safadi: com quatro curtas e um longa-metragem no currículo, desponta como um dos autores mais originais e atrevidos do cinema brasileiro. Sem medo ou pudor de experimentar o fio da navalha, os limiares do universo adulto, erudito e o ensejo libertário da arte primitiva. Tido como um filme poético e provocativo é mais uma mostra do que vem fazendo os estreantes no cinema brasileiro, ou seja, um cinema de qualidade inquestionável. A segunda sessão da noite inicia-se com a mostra competitiva de videoclipe mato-grossense, Te Estraño e Bandolera, ambos da banda Los Tiburones e ambos do diretor Roberto Kililla. Seguindo outro vídeo do MT na competitiva de vídeo Meios do diretor Dyolen Vieira. Então, serão exibidos dois curtas latinos, que não estão em competição, La Clase de Organo de Juan Carlos Maneglia e Artefacto de Primera Nacesidad com o mesmo Maneglia e Tana Schembori. Ano passado quem teve espaço foi a Bolívia, este anos desembarca por aqui o Paraguai, ao todo serão cinco filmes, todos desta dupla junta ou separadamente. Depois do passeio pelo Paraguai voltamos a nosso MT com o curta-metragem Horizontem, do veterano Amauri Tangará. O filme está na MCC. Para fechar a noite mais um documentário precioso: Santiago de João Moreira Salles que está na MCL. Em 1992 o diretor João Moreira Salles planejou o documentário "Santiago", baseado na vida do mordomo da casa de sua família. Devido à sua incapacidade em editar as cenas filmadas, o longa-metragem nunca foi concluído. Em 2005 o diretor voltou a trabalhar sobre as cenas gravadas, encontrando outro foco no material rodado. É interessante perceber como o cineasta amadurece no processo de montagem. Em um programa de entrevistas ele admite uma certa truculência e uma clara intenção de dirigir o entrevistado que tinha para com ele uma relação de empregado, mesmo sendo parte da família e com laços afetivos fortes a tendência do Santiago era atender às ordens do patrão, que no caso o dirigia. É claro que Santiago Badariotti Merlo (para ser mais preciso) era muito mais do que o mordomo. Extraído do Overmundo tem esta pérola do Thiago Camelo: um ser absolutamente fascinante, detentor de um conhecimento único sobre dinastias e aristocracias de todo o mundo. Aliás, a sua paixão era justamente escrever sobre as grandes famílias, aquelas que, para ele, tinham algo de especial, um quê divino, uma fantasia de castelos, riqueza, luxo e cultura. Porque o que tinha de mais caro era a sua cultura. Não escondia isso, dizia-se inclusive assustado e se perguntava por que nascera tão interessado em línguas, em música, em cinema, em tudo, quase. Podia variar do erudito ao prosaico num minuto, sabia tocar Beethoven, mas não se furtava a apreciar com paixão uma luta de boxe. Santiago não falava português perfeitamente, mas também parecia já ter esquecido o espanhol. Dominava línguas praticamente mortas, que aprendera muito novo em suas leituras e viagens pelo mundo. Falava uma fala só dele. Dançava bem, rezava em latim, escrevia lindas poesias, enfim; claramente, um pessoa especial, um personagem digno de ser documentado. É uma pena que pouco vemos de Santiago em tela e segundo a revista cinética o nome do documentário deveria ser João Moreira Salles. João ficou mais conhecido no final dos anos 90 com Notícias de uma guerra particular (1999), documentário sobre a guerra da polícia com o tráfico no Rio de Janeiro, co-dirigido com Kátia Lund. Em 1992 era ainda um jovem cineasta de 29 anos que achava que estava filmando a vida do Santiago, mas na visão dele mesmo, treze anos depois: Não tinha a noção de que, na verdade, não fiz um filme sobre Santiago, mas sobre a minha relação com ele. Não havia ali uma relação de documentarista e de documentado. Havia uma relação de patrão e mordomo, de, em última instância, chefe e criado. O mea culpa e a exposição do próprio Salles acaba por ser uma aula de documentarismo e a conflituosa relação entre o documentarista e seu objeto. O currículo de João Moreira Salles inclui a série Blues, premiada no Festival Internacional du Film d'Art do Centro George Pompidou e produções e co-produções com seu irmão Walter Salles e com o mestre dos documentários brasileiros Eduardo Coutinho, com o qual inclusive fez o Jogo de Cena premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Artes de 2007.