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ILUSTRADO
Quinta-feira, 02 de Fevereiro de 2017, 18h:28

CINEMA

'Estrelas além do tempo' subverte a ordem

Filme com três indicações ao Oscar conta história real de matemáticas que trabalharam na Nasa, participando de missão espacial que resultou na chegada à Lua.

LUCAS BADOER
Do Observatório do Cinema
Escrava, faxineira, namorada (ou mãe) de traficante e criminosos em geral – eis as “ocupações” habituais de mulheres negras em produções de Hollywood (e não só de lá...). O drama “Estrelas além do tempo”, que estreou ontem nos cinemas, enfrenta e subverte o clichê: as protagonistas são matemáticas afro-americanas que trabalharam na divisão aeronáutica dos Estados Unidos (o equivalente à Nasa nos anos 1950), participando da missão espacial que resultou na chegada à Lua. Não é apenas um filme bom, com três indicações ao Oscar, que roubou de “Rogue One: Uma história Star Wars” a liderança na bilheteria americana e acaba de levar o prestigioso prêmio principal do Sindicado dos Atores. É um filme necessário – em termos sociais, políticos, científicos e históricos. Faz justiça a três pessoas que mereciam fazia tempo o status de heroínas americanas na Guerra Fria. Os vilões não eram os soviéticos, mas os conterrâneos racistas e sexistas (ou seja...). Real, a história tem tanto de incrível quanto de obscura, então não se sinta mal se jamais ouviu falar dela – até o músico Pharrell Williams, que assina a produção, admitiu que desconhecia o caso. O título em inglês é, sintomaticamente, “Hidden figures”, figuras ocultas. Saiu tudo primeiro em livro lançado em 2016 por Margot Lee Shetterly. Ali, a autora resgata do anonimato matemáticas que, em um período de carência de mão de obra na 2ª Guerra, foram contratadas para trabalhar como “computadores humanos” na divisão aeronáutica dos EUA. Por motivos de habilidade intelectual sobre-humana, eram exceção. Por motivo cor da pele e gênero, eram a exceção da exceção – frequentavam, afinal, um círculo movido à segregação. Tudo tão excepcional que dava um filme. E deve significar alguma coisa o fato de ter demorado 50 anos para isso acontecer... “Estrelas além do tempo” se concentra em três delas: Katherine G. Johnson (Taraji P. Henson, bem no papel), Dorothy Vaughan (Octavia Spencer, excepcionalmente bem e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) e Mary Jackson (Janelle Monáe, cantora, mas ótima atuando não só aqui, mas também em "Moonlight"). O trio mostra bastante carisma o tempo todo e em especial nas cenas de humor (não espere um filme sisudo). “Estrelas além do tempo” é um filme “de Oscar” típico no que isso tem de bom (mais) e de ruim (menos): narrativa convencional, alternância entre drama, comédia, momentos afetuosos, jornada de superação clássica e escolhas infelizes de roteiro. Entregar uma cena forte de “justiçamento” racial ao personagem de Kevin Costner é de um equívoco imperdoável. Mas isso não enfraquece a trama. De qualquer maneira, ela não superaria concorrentes fortes como “Manchester à beira-mar”. Além disso, o diretor Theodore Melfi não leva o material mais a sério do que a seriedade a ponto de tornar o filme pesado, limitando-se ao registro do martírio de suas protagonistas (principalmente de Katherine Johnson). Também se esforça para atribuir defeitos de parte a parte: independentemente da cor, os homens lá demonstram machismo. Mérito final essencial: “Estrelas além do tempo” não quer ser maior que suas personagens. Elas estavam em um tempo e lugar em que o racismo era praticado, tolerado e incentivado. Não podiam usar o mesmo banheiro dos brancos, nem o mesmo bebedouro, nem a mesma cafeteira, nem frequentar o mesmo lado da biblioteca, a mesma escola. Você assiste a “Estrelas além do tempo” e sai do cinema comemorando (“que bom que elas fizeram o que fizeram em meio àquilo tudo”) e sentindo angústia ao mesmo tempo (“foi só há meio século”). Talvez você imagine que, neste aspecto, somos socialmente, eticamente e moralmente menos fracassados do que já fomos. Mas então você se lembra de que o Oscar não indicou atores, atrizes ou diretores negros a qualquer estatueta em 2015 e 2016. A coisa mudou em 2017. “Estrelas além do tempo” merece ser parte do símbolo dessa mudança, qualquer que seja o critério.

Edição EDIÇÃO 16969




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