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Cuiabá MT, Sábado, 13 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 08 de Março de 2008, 14h:27

ENTREVISTA

Escritor de carteirinha

Premiado escritor mineiro fala com exclusividade para o DC Ilustrado. Suas origens, sua literatura e até um pouco de política estão na conversa

Lorenzo Falcão
Da Editoria
Mineiro de Cataguazes, o escritor Luiz Ruffato é uma das mais gratas revelações recentes da literatura brasileira. Dono de um estilo próprio, onde experimenta inovações na narrativa, e demonstrando um pleno domínio de texto, o autor vem conquistando alguns dos mais importantes prêmios literários brasileiros. Sua trajetória, embora ainda curta, é bastante significativa. Publicou "Histórias de Remorsos e Rancores" (1998) e "(os sobreviventes)", (2000), ambos coletâneas de contos. Ganhou os prêmios APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) e Machado de Assis da Fundação Biblioteca Nacional com o romance "Eles Eram Muitos Cavalos", de 2001. Em 2002, publicou "As máscaras singulares" (poemas) e "Os Ases de Cataguases - contribuição para a história dos primórdios do Modernismo" (ensaio). Em 2005, saíram "Mamma, son tanto felice" e "O mundo inimigo", dois primeiros dos cinco volumes projetados do romance "Inferno provisório". Esses romances foram premiados pela APCA como melhor ficção de 2005. "Eles eram muitos cavalos" está publicado também na Itália (Milano, Bevino Editore, 2003), na França (Paris, Métailié, 2005) e Portugal (Espinho, Quadrante, 2006). Bom de conversa, como costumam ser os mineiros, Ruffato respondeu com sinceridade as questões que lhe encaminhamos, via e-mail. Vale a pena conferir. Diário de Cuiabá - Ruffato, sua biografia registra uma origem humilde onde a acessibilidade a uma formação cultural que desencadeie o surgimento de um escritor sofisticado não tende a ser comum, embora essa colocação cheire ao preconceito. Sei lá. Mas, fale-me de como a literatura surgiu em sua vida e de como seu pai (pipoqueiro) e sua mãe (lavadeira) influenciaram na sua opção profissional. Luiz Ruffato - Nasci numa família sem nenhuma cultura formal. Meu pai era semi-analfabeto, minha mãe analfabeta. Em minha casa não tínhamos, obviamente, livros, a não ser a Bíblia, já que meu pai, numa altura da vida, converteu-se, tornou-se crente, como se dizia, ou se diz, e acabou diácono de uma igreja pentecostal, a Maranata. No entanto, meus pais tinham absoluta certeza de que a única maneira de nós, os filhos, conseguirmos alguma coisa na vida seria através dos estudos. E nunca mediram esforços para que estudássemos. Então, através de nossos esforços, eu e meu irmão nos formamos no Senai, em tornearia-mecânica. Infelizmente, meu irmão morreu moço, com 26 anos. Minha irmã, como era praxe naquela época, abandonou logo os estudos, casou... Eu continuei batendo cabeça, fui pra Juiz de Fora trabalhar, acabei me interessando em continuar os estudos, fiz Comunicação na Universidade Federal de Juiz de Fora... DC - Você disse numa entrevista que sua literatura está associada a uma espécie de busca por algo que ouso rotular como justiça social. Sua ficção, no entanto, retrata uma ambiência onde a miséria é uma dura realidade, enquanto a esperança parece ter mais a ver com a ilusão. Está mais ou menos certo o que eu disse? LR - Eu penso que todas as opções que fazemos, qualquer que seja a profissão que exercemos, qualquer que seja o lugar na sociedade que ocupamos, possui uma carga ética muito grande. Você pode ser um canalha sendo gari ou médico. E pode ser um cidadão empenhado em ajudar a melhorar o mundo sendo operário ou engenheiro. Eu tento, na minha profissão, contribuir com a parte que me cabe. Acredito que propondo reflexões sobre o mundo que vejo à minha volta, com suas injustificáveis injustiças, relatando a minha indignação, estou tentando comover os meus poucos leitores e assim irmanarmos todos para tentar modificar essa realidade. Pode parecer uma utopia, mas são as utopias que modificam o mundo para melhor. DC - Já disseram que sua literatura tem uma pegada sociológica significativa. Tá certo isso, ou não é bem assim? LR - Eu tenho problemas com rotulações, que na maioria das vezes são simplificadoras. Se por "pegada sociológica" entendermos discutir a realidade brasileira, sim, minha literatura tem isso. Mas gostaria que os leitores percebessem bem mais que a questão sociológica. A opção estética por exemplo. Porque para mim a Arte não existe em recortes, mas sim como um todo. DC - O engajamento social dos artistas costuma retumbar numa patrulha ideológica implacável. Mas há exemplos de criadores geniais, cuja biografia, nem sempre se pauta no politicamente correto. Você tem uma opinião formada sobre essa questão? LR - Não me importo em ser politicamente correto ou não. Importo-me em deixar claro de que lado estou. O problema é que hoje os escritores preferem não ter opinião a respeito de nada. Prefiro conversar com um sujeito conservador, que se declara conservador, do que com um sujeito que não sei o que pensa. Se é que pensa. O que fica, sem dúvida, é a obra do escritor. Mas o escritor também é um cidadão. E enquanto ele é vivo, penso, tem um compromisso com seu tempo, a que não pode furtar. DC - Sua escrita apresenta características inovadoras. Você tem se mostrado um autor libertário, propenso a burlar convenções e quebrar regras narrativas. A tipologia e outros aspectos gráficos, gramaticais etc, são tratados sem muita cerimônia em sua literatura. Por quê isso? É algo mais racional ou apenas um fluxo de consciência estiloso? LR - Eu escrevo racionalmente. Todas as minhas decisões são baseadas em opções pensadas e pesadas. Evidentemente, alguma coisa sempre foge ao modelo, senão eu não seria humano, mas máquina. Mas escrever é trabalhar. E trabalhar com afinco. Não acredito em inspiração. DC - Sua produção literária registra experiência no terreno da poesia. Isso é coisa do passado, ou podemos esperar novos versos de Ruffato futuramente? LR - O meu livro de poemas, As máscaras singulares, embora publicado em 2002, é anterior a Histórias de remorsos e rancores, editado em 1998. Ocorre que, num determinado momento, percebi que a poesia que buscava poderia ser absorvida na prosa. O que tento hoje é fazer uma prosa de ficção que tem um pé enterrado na poesia. Agora, é claro, há coisas que nem mesmo essa maneira de escrever prosa dá conta... Portanto, quem sabe, num futuro distante, posso pensar em poesia novamente... DC - Como é a sua relação com outras artes como a música, o cinema e as artes plásticas. Elas são constantes em sua vida? Te influenciam bastante? LR - O meu romance, Eles eram muitos cavalos, nasceu de um diálogo frustrado com as artes plásticas. Na verdade, considero esse livro muito mais uma instalação literária que propriamente um romance... Daí você pode perceber a relação apaixonada que tenho com as artes plásticas. Já a música e o cinema são outro tipo de paixão. Eu não consigo viver sem música - clássica, MPB, alguma coisa de world musica (seja lá o que for isso) - e sem cinema. Mas minha relação de ficcionista se dá muito mais com as artes plásticas e com a poesia. DC - Você, imagino, lê bastante. Tem preferências? Vai mais de ficção, filosofia, poesia etc? LR - Eu tenho sempre um livro na cabeceira da minha cama - pra hora de dormir - e um outro no escritório, pra quando preciso dar uma parada para descansar... Leio de tudo, mas minhas preferências sempre recaem sobre poesia, história, filosofia, ensaios literários e prosa de ficção. Mas gosta muito de ler sobre física, geografia... DC - Luiz Ruffato é um escritor bastante premiado. Que ganhou prêmios importantes na literatura nacional. É até traduzido para outros idiomas. Imagino que, por conta disso, você fatura pelo menos uma ‘merrequinha’ em nível de direitos autorais. Ou será que você engrossa a fileira dos escritores que dizem que é impossível viver apenas de literatura? LR - Em abril completam-se cinco anos que eu deixei o jornalismo pela literatura. E não me arrependo. Eu vivo de literatura, tenho casa, mulher, filhos, gatos e gastos... Tudo quem paga é a literatura. Não os direitos autorais, mas tudo o que existe em torno dos livros, palestras, festivais, prefácios, orelhas, leituras críticas, etc. Tenho muito orgulho disso, de ser um escritor profissional num país como o Brasil. DC - E agora, quase encerrando, mais algumas perguntinhas daquelas recusáveis. Você acha que o Lula, quase na reta final de seus mandatos, estaria saindo pior ou melhor do que a encomenda? Por quê? LR - Eu sempre votei no Lula. Até que na última eleição, pesando o que havia sido seu primeiro mandato, resolvi dar meu recado, votando nulo. Não vejo hoje nenhum homem público mais habilitado para governar o país que o Lula, mas isso não significa que aprove totalmente sua administração. Há coisas formidáveis, como por exemplo o Bolsa-Família, que só os cínicos que nunca passaram fome criticam. E há coisas execráveis, como a manutenção de políticas de troca de favores que impera no Congresso Nacional. O que penso, afinal, é que infelizmente Lula não se percebeu como ser histórico. E perdeu a oportunidade de entrar para a História. DC - E o futuro do Brasil, politicamente falando. Você acredita em algo ou alguém que possa reverter a nossa sorte? LR - O Brasil existe apesar dos políticos, apesar da classe dirigente, apesar da nossa burguesia predatória, apesar de tudo... DC - Última pergunta: Quando você ouve falar de Mato Grosso, de Cuiabá, qual ou quais são as primeiras coisas que lhe vêm à cabeça? LR - Calor. E um desejo muito grande de conhecê-la.

Edição EDIÇÃO 16962




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