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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 11 de Fevereiro de 2012, 13h:13

CRÔNICAS

Era sobre um dragão que eu achei

Juliana Curvo, Luís Gonçalves e Valéria Del Cueto, cronistas domingueiros do DC Ilustrado, exercitam a pluralidade das letras em nosso Caderno

Juliana Curvo*
Especial para o Diário de Cuiabá
Arrumar a casa exige ternura. Dessas que não é todo o coração que possui. Exige silêncio, solidão. A cabeça vagando, ou a alma fora do corpo, enquanto apenas este cumpre o trabalho braçal. Trocar os móveis de lugar requer mais que movimento. Troca-se, também, o lugar da memória. Disfarça-se o passar dos anos, que o móvel estático, no mesmo lugar, poderia deixar à mostra. Disfarça-se as faltas que lhe fazem certos momentos, de gente que não existe em outro local, além de dentro de ti. Arrumar a casa melhora com a idade. As novas geografias que surgem na mesma sala, com os mesmos móveis dispostos apenas em outro formato, podem lhe surpreender. Depois do corpo cansado, pelo trabalho braçal, com a alma despregada, remexendo memórias, não há de haver quem diga que não se re-nasce, se re-inventa, se re-faz. Meus óculos estão descascando, acho que eles já estão velhos. E os dias andam mais quentes e estranhos do que se parece, ou ao menos é o que se vê. Mas, para compensar tanto calor, o céu tem dado discretos espetáculos de cor e imagens, em especial no final da tarde. Este, acho o melhor horário para arrumar a casa. Para criar novas geografias, apenas dispondo as coisas de forma diferente. Mas, não é apenas dispor de uma maneira diferente, é se expor também. Quando se muda, em especial quando você cria coragem de enxergar que dentro a mudança já estava consolidada, o que se faz é expor, de alguma maneira, a nova geografia. Nesse lugar que eu escolhi, ou nasci pra viver, os dias quentes são cotidianos, em outros eu não tenho idéia de como sejam (nem o céu e muito menos os dias). Mas, há algo que escapa ao calor, que vai além do céu e seus espetáculos e eu não sei falar desse algo. Eu escrevi uma outra crônica que estaria no lugar desta que você agora lê (sim, isso é uma crônica, ao menos eu acho que estou escrevendo uma e você pode fazer de conta que ela é). Mas, eu achei que ela estava muito cinza, apesar de que cidades quentes também são cinzas. Céus de fevereiro são mais escuros que os de outubro, novembro. Chuvas de dezembro são mais fortes que as de junho. Mas, eu não estou cinza, nem por dentro e nem por fora. Eu percebi que a simplicidade de certos atos é mais interessante do que textos complexos. Que vale a pena catar flor na rua e dar de presente. Certa vez, na tentativa de fazer literatura (Existe um frasco pequeno de perfume guardado, umas lembranças, quem sabe. Vou olhar para ele sempre como o atestado óbvio da incompetência) eu escrevi um conto onde eu começava: “Tornei-me, hoje, pela manhã, um gigante. Não um qualquer, desses mitológicos. Tornei-me um único, comum pela delicadeza da solidão. Ou que sente-se sozinho com a sua ausência. Ou não. O que importa é que hoje, definitivamente, tornei-me um gigante. De pés grandes e calejados. Calcanhares descascados. Mãos enormes. Pele seca, dura. Nariz imenso. Olhos fundos, com olheiras.” O nome do conto é Sobre gigantes, mas nele eu termino falando de um dragão, ou daquilo que dele ficou em mim. Desde o tempo em que li Caio Fernando Abreu em fotocópia, achando aquilo único, com “Os dragões não conhecem o paraíso”, até o dia em que eu achei um dragão, passeando pelo local onde eu trabalhava. E não é fácil carregar esse dragão dentro de mim, mas, vem dele muito das minhas vontades de arrumar a casa, de dispor os móveis de outra maneira e expor, aqui ou em qualquer outro lugar, a ternura da simplicidade. É ao meu dragão, que dedico hoje o que escrevo (ou à coragem de me dispor de uma outra maneira). *Juliana Curvo é professora de literatura, inútil, mas agora com mestrado. Míope, mãe e problemática. Escreve mais do que lê, gosta mesmo de colecionar coisas velhas e ultrapassadas, e colabora com o DC Ilustrado.

Edição EDIÇÃO 16961




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