Ultimamente tenho recordado aquele personagem de Graciliano Ramos, em Angústia, o qual passara a vender os seus poemas e, como se não bastasse, toda vez que alguém demonstrava interesse, simplesmente arrancava a folha de um velho caderno no qual estavam os seus originais. Não estou em situação semelhante. Na verdade, desde que assumi o compromisso de contribuir com textos semanalmente neste jornal, uma de minhas preocupações principais tem sido em relação a que gênero textual seguir. Tenho certa predileção pelo conto, embora considere um trabalho mais fácil o de redigir crônicas devido à linguagem que pode ser empregada, mais solta e descontraída, muito próxima do bate-papo diário. O conto, por outro lado, ostenta um ar mais artístico; ao passo que a crônica tem o privilégio de ter nascido no próprio jornal e de ser, consequentemente, este gênero híbrido entre a literatura e o jornalismo. Outro dia voltando pra casa sem ainda ter decidido que caminho seguir (conto ou crônica?), percebo que rodei alguns quilômetros a mais sem ter trocado o óleo do motor. O pior é que eu havia adiado ao máximo o momento de escrever e, pelo que conversara com o editor deste caderno, deveria enviar o texto nas próximas horas. Sem conseguir tirar estas e outras preocupações da cabeça, escolhi um banco que me pareceu razoável dentro da oficina. Antes de me sentar, entretanto, tive que retirar uma pilha de jornais de cima do assento. Imaginei a singularidade da cena na qual os mecânicos enquanto trocavam óleo e peças, engraxavam, abriam e consertavam motores, afrouxando e apertando porcas, discutiam os acontecimentos do dia. Mas eis que designaram para o serviço o rapaz mais inapto do lugar. Talvez por considerarem aquele um serviço que exige poucas habilidades. Até porque, muita gente é capaz de realizá-lo até mesmo sozinho em casa. Enquanto caminhava em direção a moto o rapaz tropeçou em uma vasilha que estava ali para guardar o óleo queimado que é retirado dos motores e uma pequena poça logo se formou no lugar. Um homem, talvez dono da oficina, ralhou com o aprendiz. Rapidamente, dizendo: Já dou um jeito nisso, o desastrado rapaz apanhou um dos jornais ao lado e, em poucos segundos, enxugou toda a poça do óleo. Ao ver a capacidade de absorção do jornal e de relacionar o que havia presenciado à inúmeras outras formas de sua utilização, compreendi o porquê dos jornais estarem ali. Não é que não tenham sido lidos. Muito pelo contrário, evidenciavam tão somente que embora feneçam, os jornais encarnam a fênix mitológica a cada novo dia. Dessa forma cumprem também os seus destinos diariamente a crônica, as notícias e tudo mais que é publicado desde que surgiu a imprensa. Assim, concluí que optar por este ou aquele gênero pouco alteraria, contanto que não passasse a agir tal qual o personagem de Graciliano citado no começo deste texto. *Odair de Morais é professor e colabora com o DC Ilustrado (
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