Detalhes dos lábios carnudos deixavam brilhos reluzentes que apareciam como relâmpagos prendendo a visão na fresta brilhante. Os cabelos esperneavam de um lado a outro. Dos fios libertinos escapavam gotinhas de sabor das flores silvestre. Uma coceira na mão dava uma gastura danada. Curtia a vontade de esfregar a mão uma na outra. Ela insistia em narrar o papo da amiga que disque foi arrebatada por um desses amores triviais da vida e acabou surfando na onda da dor. Eu me afogava nos bafos de perfumes e cosméticos que exalavam da fêmea. A boca que se movia numa destreza espetacular mordia meu desejo em cada sílaba. Numa sofreguidão que triturava o juízo de forma que era obrigado a prender meu espírito num tronco de punição para não permitir que avançasse em total descontrole sobre aquela divina criatura. Procurava ater na conversa que sugava a vida deixando o estático corpo numa geladeira imoral. Senti o frio desejo apregoar a minha pessoa açoitada pelos arrepios inconvenientes da boa dose de pecado da carne. Que ridicularizava totalmente a minha seriedade. Os pequenos efeitos especiais que soltavam faíscas na fresta inquieta eram dentes brancos e agressivos que tropeçavam no ar da graça apenas para confundir a minha postura de amante a moda ativa. Uma impaciência desconexa tomava conta do meu ser arrancando um líquido quente das mãos. Essa agitação fazia a língua entrar em total desespero afogando em meio a salivação crescente. Quando ela resolveu agarrar o chumaço de cabelo e acomodá-lo num simples coque no alto da cabeça meus olhos fisgaram a nuca nua sugerindo dois dedos e meio de intensa safadeza. Tentei comportar e escorri o olhar para os braços pecaminosos atados em cordões devidamente bem distribuídos somente para não dispararem atrás dos incríveis momentos de perdição. Meus olhos atolaram na munheca da sujeita que mais parecia um punho de onça pronto para abraçar meus sonhos. Nesse momento a respiração começou a se entupir de uma vontade maluca de assoprar alguns beijos de patente viril. Acabrunhado deixei a cabeça pender totalmente desmoralizado e tomado pelo desejo cruel. Os olhos traiçoeiros crisparam nos tornozelos da fina estampa escravizados por um fino cordão dourado. Senti que um vento encanado vindo ali do caminho da perdição tomou o controle de minha alma. Uma loucura intempestiva varreu a minha moral para o baixo calão. Olhei aquele rosto de fêmea malhada em alegria e curtida em desejo; joguei por terra a pouca consciência que ainda me restava e reagi: - Bandida... *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado
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