ILUSTRADO
Sábado, 18 de Julho de 2009, 13h:26
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PÓSTUMA
Edward Said aborda obras de seus ídolos
O escritor analisa as obras derradeiras de alguns autores justamente em busca de contradições que costuma cercar esses trabalhos finais
Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
Adorno cunhou o termo Spätstil (estilo tardio) não exatamente para tratar de manifestações estéticas agonizantes, mas para se referir às últimas obras de criadores que poderiam constituir uma espécie de testamento artístico ou um acerto de contas com o conhecimento acumulado durante toda uma vida. Como seguidor de Adorno, o professor de literatura e escritor Edward Said (1935-2003) resolveu, pouco antes de morrer, homenagear o ídolo, batizando seu último livro de ensaios justamente de "Estilo Tardio" (Companhia das Letras, tradução de Samuel Titan Jr., 192 págs., R$ 43,50). É, ao mesmo tempo, um tributo e uma crítica. Embora concorde com Adorno (1903-1969) nos principais pontos de sua filosofia estética, Said discorda do pensador alemão numa área em que ambos foram especialistas: a música. Ao analisar, por exemplo, o "estilo tardio" do alemão Richard Strauss (1864-1949), Said acusa Adorno de ser incoerente quando estuda o autor da ópera "O Cavaleiro da Rosa". Até aí, nem o pianista canadense Glenn Gould (1932-1982) levou a sério a incoerência de Adorno, que apontou Strauss como arauto de uma nova civilização e, ao mesmo tempo, criticou-o por ser um senil retromaníaco alinhado aos nazistas. Gould nem faz menção a esse incômodo envolvimento. Analisa Strauss como um autor independente, que compôs sobre temas avessos ao espírito do Terceiro Reich. Já o politizado Said, defensor da causa palestina, o critica justamente por isso. Um compositor tão ousado não poderia ter regredido ao "mundo açucarado" e tonal de "O Cavaleiro da Rosa" (que, aliás, não é uma ópera terminal) após ter produzido as atonais "Salomé" e "Electra". Essa seria apenas uma observação passageira se Said não insistisse tanto em provar que não foi apenas um aluno aplicado de Adorno, mas um pensador independente, capaz de construir o próprio cânone: Britten (dele Said analisa a ópera "Morte em Veneza"), Mozart (de quem julga "Così Fan Tutte"), Richard Strauss, Thomas Mann, Jean Genet, Lampedusa e o poeta Kaváfis, todos estudados num livro algo fragmentado por razões circunstanciais - o autor estava morrendo de leucemia. Sente-se, claro, a falta de artistas visuais em sua lista de favoritos, o que parece escandaloso para um intelectual dedicado ao estudo do "eu tardio" de criadores à beira da decomposição. Por que Rembrandt, pintor fixado na própria imagem destruída pelo tempo, não entrou nesse ensaio sobre obras tardias, destinadas a concluir um projeto estético? Afinal, os últimos autorretratos do holandês são provas de que, ao chegar ao fim, procuramos sempre um prova do conhecimento acumulado durante toda a vida. Na semana de sua morte, em 25 de setembro de 2003, Said trabalhava justamente na elaboração de "Estilo Tardio". Pode ser que planejasse escrever algo sobre os pintores, uma vez que menciona Rembrandt e Matisse entre os artistas que coroaram suas vidas com obras tardias. Pode ser também que o organizador do livro, o crítico Michael Wood, estivesse menos próximo de Said e mais da visão de Adorno - de que a arte moderna é uma mensagem de desespero vinda de um navio naufragando. Teria Wood suprimido um ou outro texto que lhe pareceu fragmentado demais para ser publicado? Wood conclui, por sua conta e risco, que Said não queria terminar o livro. Isso seria o mesmo que voltar às origens, ao primeiro livro por ele publicado (em 1966), sobre Conrad, e reiniciar a viagem em busca de uma explicação para o seu fim. "A ideia da própria morte aprofundou seu apego à questão do tardio, mas não foi ela que o instigou", garante o organizador do livro, livrando-se da obrigação de interligar passagens que parecem um tanto abruptas. Certamente, para quem gosta de música, o livro de Edward Said pode ser bastante revelador sobre a personalidade do homem que denunciou a "invenção" de um certo Oriente pelos intelectuais ocidentais em seu livro "Orientalismo" (de 1978), defendendo que esses definiriam os orientais para melhor manipular a ideia do "outro". Ao analisar o estilo tardio de compositores, Said não parece estar em busca da sabedoria, harmonia e serenidade que deveriam caracterizar as derradeiras obras de escritores e artistas, mas justamente à procura das contradições que cercam esses trabalhos - e não seria o caso de perguntar se o insuspeito Said teria ele mesmo se transformado num ocidentalista, ao colonizar os compositores europeus de sua predileção para melhor entender suas motivações? Está certo que dificilmente alguém teria a acrescentar algo sobre as obras tardias de Beethoven depois de Adorno, mas Said tenta, mesmo assim. O que atraía Adorno para a obra tardia do compositor era seu caráter episódico, o aparente desprezo por sua continuidade. Para Said, porém, o que traduzem os últimos quartetos de Beethoven, mais que raiva e amargura, é a ideia trágica de que nenhuma síntese é possível. Beethoven prenuncia a obra de Schönberg, rejeitando a ordem burguesa. Said não segue adiante. Prefere se fixar na obra de Mozart, embora esclarecendo não ser musicólogo de profissão nem especialista no compositor austríaco - modéstia incompreensível para quem publicou o livro "Elaborações Musicais" (Imago, 1991) e criou uma fundação com o maestro Barenboim. Sobre literatura, o ensaio a respeito da obra do francês Jean Genet supera em tamanho o dedicado a outro escritor homossexual, o grego-alexandrino Konstantinos Kaváfis, que sempre deixou evidente sua limitada expectativa de concluir com seus poemas tardios um projeto monumental, épico. Said vê Kaváfis como um poeta fora do tempo e Genet como um "viajante entre identidades". Em ambos os casos, viveram vidas provisórias É lícito, então, falar em estilo tardio?