ILUSTRADO
Sábado, 07 de Fevereiro de 2009, 13h:43
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RESENHA
Dom Quixote ganha adaptação em quadrinhos
Novo colaborador estreia analisando um dos maiores clássicos literários que foi adaptado para a linguagem das histórias em quadrinhos
Bendito Gonçalo
Especial para o DC Ilustrado
Seguramente dos maiores romances do cânone ocidental, para muitos críticos, inventor inclusive da forma e da técnica do gênero e, devido a isso, insuperável, Dom Quixote acaba de receber adaptação para a nona arte. E adaptação de alto nível, convém ressaltar. Em um volume poderoso, ao texto irrepreensível de Miguel de Cervantes Saavedra, uniu-se traços e roteiro de Bira Dantas; sua escolha por buscar referência e inspiração no francês Gustave Doré, maior ilustrador de clássicos do século XIX, e no espanhol Francisco de Goya para muitos, os maiores precursores da atual linguagem pictórica aplicada às HQs foi um tiro certeiro. Dono de larga experiência em produção quadrinística ele desenhou vários números da revista dos Trapalhões em sua primeira fase, produziu HQs para os sul-coreanos e adaptou Memórias de Um Sargento de Milícias, de Manoel Antônio de Almeida, entre muitos outros trabalhos , Dantas encarou o desafio de apresentar sua versão da história do cavaleiro da triste figura, sonhador contumaz que se perdeu ao dedicar parte considerável de sua vida aos relatos de cavalaria e feitos heróicos da mitologia. De traço exagerado habitualmente, desta vez preferiu se conter e adequar-se às suas principais sombras inspiratórias, talvez para distanciar-se da obra de Caco Galhardo (Editora Peirópolis, 48 páginas, R$ 26), que adaptou o mesmo romance para os quadrinhos em 2005. Vale a pena ler as duas, caro leitor, elas são absolutamente distintas entre si. A história propriamente dita caso você tenha cometido o crime de ainda não ter lido o livro (não, não é arrogância minha, é falha sua mesmo) trata em primeiro plano da vida de um certo fidalgo empobrecido chamado Alonso Quijano e seu amigo e vizinho Sancho Pança. O primeiro é alucinado por muito ler e pouco comer e dormir, o segundo vive a tentar tirar o amigo desse labirinto pré-cognitivo. Completamente tomado por sua própria imaginação, Quijano elege como favorita a pobre, feia, analfabeta e desdentada Aldonça, de Toboso; para o agora Dom Quixote de La Mancha, uma princesa donzela e formosa de nome Dulcinéia Del Toboso. Como meio de tornar-se merecedor das boas graças de tão elevada senhora, resolve lançar-se ao mundo para combater monstros, tiranos e toda espécie de injustiça. Pouco se importando com o deboche e a negação de todos à sua volta, elege Sancho seu escudeiro e toma para si sucata a servir de armadura e um pangaré como corcel indômito. E é a partir daqui que o livro mostra o motivo de ter se tornado clássico absoluto. Em um tempo em que psicanálise, subconsciente e outros conceitos hoje clichês não eram sequer sonhados, Cervantes opõe Quixote e Sancho sucessivamente como desvario e prudência, alucinação e raciocínio, descontrole e freio, coração e espírito. Como sonhar e não dormir é mesmo ofício de loucos, Quixote vive a trocar os pés pelas mãos e a desgraçar tudo o que se mete a realizar. E como dito anteriormente, isso é só o primeiro plano do enredo, pois há ainda várias histórias paralelas, todas eivadas de um sentido trágico ao mesmo tempo em que carregadas de tom cômico. Após receber o tratamento habitual reservado por este mundo aos que ousam desafiar sua lógica de traições e vaidades feridas, Quixote é agredido repetidas vezes, inclusive fisicamente, e a dura lição a ser aprendida é justamente essa: se você vai se meter a ter ideais ou honra, é bom também acostumar-se a vê-los ruir. Todos, bons ou maus, falsos ou verdadeiros, intensos ou frouxos, vão ocupar a mesma vala comum e sufocar na mediocridade da rotina, este monstro que assassina individualidades e cria bestas ambiciosas. Assim sempre foi e assim sempre será, não importa o século ou milênio. A humanidade, meu amor, não vai mudar nunca. SERVIÇO Dom Quixote em Quadrinhos, adaptação do clássico de Miguel de Cervantes pelo roteirista e ilustrador Bira Dantas. Editora Escala Educacional, 85 páginas, R$ 23,90. Pode investir suas lascas numa boa, vale cada centavo. *Benedito Gonçalo é cuiabano, funcionário público aposentado recentemente e colabora com o DC Ilustrado.