ILUSTRADO
Sábado, 13 de Setembro de 2008, 10h:01
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LITERATURA
Do mato para a maquete
Cotado para ganhar o Portugal Telecom, o poeta cuiabano, radicado em Brasília, fala de seus versos, de Brasília, de Cuiabá e de outras coisas mais
Lorenzo Falcão
Da Editoria
Oito brasileiros disputam com o português António Lobo Antunes e o angolano Ondjaki a final de 2008 do Prêmio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa, conforme anunciou a organização do prêmio há poucos dias. Entre eles há um poeta cuiabano, Nicolas Berh. Ele começou lançando seus pequenos livros, produzidos graças à tecnologia de um aparelho chamado mimeógrafo, na segunda metade dos anos 70, quando já tinha se mudado pra capital brasileira. Ano passado uma editora publicou em um livro Laranja Seleta, uma seleção de seus poemas, concebidos ao longo de mais de 30 anos. Deu no que deu. Confira a conversa via e-mail que o DC Ilustrado emplacou com Nicolas Diário de Cuiabá - Ninguém me ama / ninguém me quer / ninguém me chama / Nicolas Behr... Agora, com você entre os finalistas do Portugal Telecom, parece que tem gente te querendo. O poeta mudou? Está diferente? Nicolas Berh - Mudou. Mas mudou muito pouco. E tem mais é que mudar. Quem fica parado é poste. Acabei de fazer 50 anos de idade. Poeta 5.0. Bicho, 50 anos! Pensei que só acontecia com os outros. Mas quero dizer que estou muito, muito feliz com a indicação para finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura. E a felicidade é proibida ao poeta. É politicamente incorreto ao poeta ser feliz. Parece que o poeta tem que ser infeliz para que os outros sejam felizes. Não concordo. Quero ser poeta e feliz. DC - E a sua poesia, as coisas que você escreve hoje. São muito diferentes do que escrevia há 30 ou 20 anos passados? NB - Há 30 anos eu tinha 20 anos e publiquei Chá com Porrada, no mimeógrafo, e logo depois fui preso pelo DOPS. Nunca mais vou escrever Chá com Porrada, nunca mais vou ter 20 anos. Hoje escrevo muito sobre Brasília, que é uma clara obsessão na minha poesia. Escrevo também sobre a minha infância em Diamantino (MT), pra provar pra mim mesmo que minha poesia não é refém de Brasília. E tenho planos de escrever um livro erótico, mas só planos. Poesia erótica é muito difícil. E querer publicar um livro de poemas eróticos depois do livro Amor Natural, do Drummond, é muita petulância. DC - Fale um pouquinho sobre sua vocação para a poesia. Com quantos anos, mais ou menos, e como foi que você se descobriu poeta? NB - Quando eu estudava o ginásio em Cuiabá, na Escola Técnica Federal de Mato Grosso, ouvi a professora dizer: ah, aqui o autor usou de "licença poética". Aí eu perguntei: ah, então pode escrever errado? Sim, mas o poeta aqui usou de "licença poética". E isso ficou no meu inconsciente muitos anos. Mas me descobri poeta em Brasília, logo depois que aqui cheguei, em 74. Sai do mato para cair na maquete. Eu, menino de rua em Cuiabá, com a minha turma de andar de noite de bicicleta na avenida Getulio Vargas, começando a namorar. Indo pescar no Cuiabá de vez em quando. Pulando muro, roubando manga. E de repente caio numa cidade fria, planejada, autoritária, árida, massificada, massificante. E hoje posso dizer: se não fosse a poesia talvez eu não estivesse agora respondendo suas perguntas. Isso parece dramático e é. DC - Os poetas costumam versejar de acordo com circunstâncias variadas. Existem situações, imagens ou quaisquer outras coisas que costumam provocar o seu verso? NB - Ultimamente tenho feito livros temáticos, por exemplo, o que estou escrevendo agora sobre Brasília, que se chama BRASILÍADA. São relatos arqueológicos de uma Brasília que vai ser escavada daqui a uns 3.000 anos. Outro livro que estou trabalhando, mas menos, é o MENINO-JAMBARI, sobre minha infância em Diamantino, e está ficando bem legal, com fotos, desenhos meus quando criança. Um livro-álbum da minha infância. (O poeta alemão Rilke dizia que a única pátria do poeta é a infância. Concordo.) DC - Sua poesia traz um verso, pelo menos aparentemente, banhado de simplicidade. E também uma carga imagética forte. Você parece propor ao leitor um raciocínio mais direto, sem muitas viagens filosóficas, em torno do tema desenvolvido. Está correto o que eu disse? NB - É que minha poesia é refém do acontecido. Está muito baseada na realidade, no cotidiano, no dia a dia. Sou um poeta de ouvido. Não sou poeta de imaginação fértil, de viagens astrais, de loucuras. Tenho sempre o pé na realidade. E nada é mais forte que a realidade. Mas tento sim chegar ao simples do simples, mas com poesia. Aí está o desafio. Falar de coisas banais, corriqueiras, mas com graça e poesia. DC - Você lê muito...? Poesia, prosa etc... Sente-se influenciar por alguém? Ou está entre os autores que consideram a leitura como algo que também pode desviar o poeta de um verso mais autenticamente pessoal? NB - Leio muito, o tempo todo. Outdoors, placas de monumentos, rótulos de cerveja, placas de caminhão, lápides de cemitérios... Leio muitos livros, sobre psicanálise, sobre história, sobre poesia. E leio romances, poesia... Leio tudo que me cai na mão. Muitos me influenciaram e sou orgulhoso dessas influências: Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado (adoro!) e os de minha geração: Cacaso, Francisco Alvim, Paulo Leminski, Chacal... DC - Têm coisas que você escreve que são a cara de Brasília, e que retratam uma ambiência urbana meio impessoal, meio fria. Por outro lado, você parece adorar Brasília. Tanto que mora aí há um tempão. Vai aí uma certa relação de amor e ódio? NB - Amor mais ódio igual paixão. Minha relação com Brasília não é fácil, é conflituosa e eu espero que assim permaneça para todo o sempre. Do conflito nasce a poesia. Claro, hoje minha relação com a cidade já está mais fácil, me sinto parte orgânica da cidade, tenho uma relação visceral com esses eixos, blocos e quadras. E acho um privilégio escrever sobre uma cidade poéticamente virgem. Sim, minha poesia não traz nenhum encantamento com a grandiosidade dos monumentos, com a ousadia do traço. Fala mais de uma voz de dentro, de quem mora num bloco, anda pela super-quadra. Mas Brasília me fascina sim, me traumatiza, no bom sentido. Tem um livro meu cujo último verso é assim: a última coisa que quero fazer em Brasília é morrer. DC - Voltemos ao Portugal Telecom. Quando Laranja Seleta foi inscrito no prêmio, chegou a passar pela sua cabeça que poderia estar entre os dez melhores livros lançados no Brasil ano passado? NB - Corrigindo, meu caro: estar entre os dez melhores livros de literatura em língua portuguesa no ano passado. Pois concorreram escritores de Angola, Moçambique, Portugal e Brasil. A ficha ainda não caiu. E talvez nunca caia. Mas continuo o mesmo. Não vou virar aquilo que sempre combati. O medalhão, (ou merdalhão). O que começa logo a cagar regras do bem escrever. Abaixo o beletrismo. Olha, ainda tem muita pedreira pra quebrar. Em muitos lugares, em muitos corações e mentes a semana de arte moderna de 22 ainda não chegou. Muitos poetas ainda estão lá no parnasianismo, reféns de camisas de força... Poesia é libertária, é ruptura. DC - Poeta cuiabano, radicado em Brasília é uma definição válida pra você. Informações biográficas dão conta de que se mudaste pra DF em 1974. Mas imagino que pra você Cuiabá seja mais do que um quadro pendurado na parede... NB - Tenho boas lembranças dos 5 anos em que morrei em Cuiabá, dos 10 aos 15 anos. Mas como a grande maioria das cidades do planeta, Cuiabá também cresceu, e muito. E quando vou ai vejo como as avenidas eram muito mais largas quando eu era menino. Cuiabá passou por um processo brutal de desenvolvimento, que não respeitou nada. O centro histórico não foi preservado, o que é uma pena. Lembro bem das explosões da destruição da Igreja Matriz, em 1969, e o bispo dizia que a igreja ia cair. E tiveram que usar dinamite para destruí-la. Uma tristeza. Minha ligação mais forte é com Diamantino mesmo, onde estudei no Lar do Menor, mantido pelos padres jesuítas, lá estudei o primário e tenho ido lá regularmente. Cuiabá só de passagem. DC - Em muitas entrevistas eu costumo não fazer aquela que seria a última pergunta... Assim, se o entrevistado quiser, pode falar mais alguma cosita... Ou não. É com você! NB - Lorenzo, acho que é isso mesmo. Vamos dar um jeito de eu ir praí no começo de dezembro, fazer um lançamento, noite de autógrafos, num lugar legal, espaçoso, e antes fazer uma palestra pros estudantes de letras da universidade... Por exemplo... Veja aí e me diz.