ILUSTRADO
Quinta-feira, 12 de Novembro de 2015, 19h:33
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CRÔNICA
Difícil também é fotografar o futuro
Em memória de dois homens preciosos que se foram no mesmo dia 13 de novembro de 2014: meu irmão Wilson Nogueira e o poeta Manoel de Barros
LUCINDA PERSONA
Especial para o DIÁRIO*
O sol, jamais cansado de girar, ressurge a cada dia. E, quando um dia nasce, tudo o que vem com ele (no jorro natural das horas), até que termine, é um mistério. Podemos ter planos, rotinas, desejos e compromissos agendados, mas sempre haverá um plano superior conduzindo nossos destinos. Fecho os olhos. Um escuro vazio se estabelece. O dia em curso tem um conteúdo absolutamente imprevisível e que me faz dizer: - de um dia para o outro, estou sempre aguardando o daqui a pouco, como quem não o conhece. Abro os olhos. Estou no passado. São mais ou menos onze horas de uma manhã chuvosa de novembro. O mundo gira do jeito que lhe é peculiar e meu espírito se ajeita à paisagem e às coisas, numa fidelidade cujos efeitos me são de grande paz. O céu e o ar, as árvores e as casas, os veículos e os pedestres, estão empalidecidos pelo fino cortinado da chuva. Essas imagens mais vagas e o encurtamento das lonjuras vão propiciando novas declarações. Estou no carro, saindo de um supermercado. O celular toca. Atendo. É uma repórter e, por essa voz, recebo a notícia da morte do poeta Manoel de Barros. O Guardador de águas não mais está em nosso espaço/tempo. Desfeita a ligação, ainda sem dar partida ao carro, fico de olho na chuva que por sua vez também me olha. Isso é possível? Nós nos olhamos com esse abalo que toma conta dos corações e das coisas, quando não mais existe fisicamente a voz que nos diga: Uma chuva é íntima. A voz que desde a infância e suas peraltices recomende o mágico jogo das palavras proclamando: A água passa por uma frase e por mim. Embora as palavras não informem com eficácia as realidades, continuo atraída pela garoa que me impede as largas miradas. Aquela mirada que me mostre pelo menos o restante deste dia 13 de novembro de 2014. No poema O fotógrafo, Manoel de Barros alerta: Difícil fotografar o silêncio. E então eu lhe respondo que difícil também é fotografar o futuro. Por eternos minutos, contemplo, com meus olhos carnais, tudo o que está embaralhado pela chuva. Um legítimo exercício da memória, ao qual nunca me furto. Obsessiva por não esquecer nada, por não esquecer os elementos de um agora tão efêmero. Nunca sabemos quando um dia que nasceu comum e aparentemente inofensivo, irá se converter drasticamente num dia de dores maiores. Entretanto, não descanso e prossigo no cenário onde as coisas acontecem. O fim de ano se aproxima e ressurgem os consumos da época. Passo em outra loja para pequena compra e, com ares de rua, retorno a casa. Dar por escrito o que faço, distancia-me um pouco do desfecho irreprimível do dia. Hora do almoço. Notícias na TV. A morte do poeta ganha destaque. Planejo escrever algo. De tarde um homem tem esperanças, diz outro verso de Manoel de Barros. E sinto que a luz passeia por dentro dos meus olhos. Os ponteiros avançam. A velocidade do tempo não atinge o nível que minha alma gostaria, ou seja, que cada minuto durasse pelo menos um mês. Os afazeres, o comer, o beber, o vestir e tantas rotinas necessárias vão acontecendo no seu devido tempo. Salto etapas e fatos. Certos tons de nossas vidas não cabem na breve crônica. Aos poucos, a tarde sai de dentro de minhas ponderações. A noite chega, assume sua cor e seus mistérios recônditos. Vou à janela. Olho os postes e suas lâmpadas, o telhado do bairro e o seu tom terroso, o firmamento e suas flores de inquietude. Retomo o interior da casa. Nem tudo corre a meu gosto. O que vivo e o que penso se perdem na história. Abandono um programa musical. A escrita e a leitura me chamam. Há um abismo por perto, mas ainda não sei. Chego ao escritório. São mais ou menos onze horas da noite. Novamente, o telefone toca. Alguns instantes de sombras. Atendo. É minha irmã Olanir e, por sua voz em prantos, recebo a notícia da morte de nosso irmão caçula Wilson, lá em sua distante e pequena cidade do sul. Um infarto agudo acaba de colocá-lo do outro lado. Incredulidade, inconformismo, rogos, protestos e lágrimas. Rejeito a condição, mas inutilmente. Uma dor aguda em forma de oração me sustenta. Como é triste a queda de quem está de pé, no alto da vida, no alto do amor ardente a Deus e aos seus e, de repente, desaba no chão. *Lucinda Persona é Professora, poeta, autora de Entre uma noite e outra - Cuiabá: Entrelinhas, 2014.