ILUSTRADO
Sábado, 22 de Agosto de 2009, 23h:59
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AUTOBIOGRAFIA
Diários de Susan Sontag já são editados
Diários colecionados desde a adolescência da autora, até o fim de sua vida, começam agora a ser editados por, David Rieff, filho dela
Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
Aos 16 anos, a ensaísta e romancista norte-americana Susan Sontag (1933-2004) registrou em seu diário o fascínio provocado pela leitura do romance Os Moedeiros Falsos, do francês André Gide, justamente um livro sobre um homem, Edouard, que planeja publicar um romance chamado Os Moedeiros Falsos, ao mesmo tempo que escreve um diário. No final, Edouard conclui que seu diário é mais interessante e planeja editá-lo, no lugar do livro. Talvez Susan Sontag não subestimasse tanto sua produção literária, como Gide, que fez de Edouard seu alter ego, mas é provável que esse também fosse o plano da ensaísta, que manteve uma centena de cadernos guardados num armário de sua cobertura no Chelsea, em Nova York. Esses diários, colecionados desde a adolescência até o fim de sua vida, em 2004, começam agora a ser editados por seu filho, David Rieff, fruto de seu casamento com o professor e sociólogo Philip Rieff (1922-2006), de quem Susan foi assistente na juventude. Com o mestre ela aprendeu um bocado sobre Freud - o acadêmico Rieff escreveu um livro fundamental a respeito do psicanalista, Freud: The Mind of a Moralist, publicado há 50 anos, sem dar crédito à mulher, que o ajudou na pesquisa. Em contrapartida, ajudou-a a desenvolver seu estilo como crítica cultural, misturando em seu caldeirão erudito novas teorias psicológicas, filosofia e referências teológicas. Susan tinha apenas 17 anos quando casou com Rieff, mas, antes dele, experimentou sexo com outras mulheres e parte deste seu primeiro diário é dedicada a discutir casos amorosos com colegas da universidade. Em 1948, aos 15 anos, ela escreve, por exemplo, que reluta em escrever sobre suas tendências lésbicas, sentindo-se "à beira de um abismo ilimitado", para logo em seguida refletir: "É muito provável que ao lembrar-me disso, um dia, eu ache muita graça". No ano seguinte, enquanto lia Aldous Huxley (Ponto e Contraponto), que classifica como um tributo à sua embrionária capacidade crítica, descobre estar apaixonada por Irene Lyons, amante de sua primeira transa amorosa, Harriet Sohmers, mas, ao mesmo tempo, quer reagir e sentir que pode ter atração física por um homem, aceitando o convite de James Rowland Lucas para ver um concerto de Mozart em São Francisco. É justamente nessa cidade, a capital da liberdade sexual nos anos de juventude de Susan Sontag, que ela vai descobrir os bares gays até encontrar Philip Rieff em 1950. O filho do casal, editor da mãe na Farrar, Straus and Giroux, interfere justamente nesse ponto para alertar o leitor que não encontrou entradas para o ano de 1950 fora o casamento dos pais, afirmando que não havia nenhum caderno para os anos 1951 e 1952 entre os pertences da ensaísta. Enfim, é a palavra do editor. O certo é que ainda teremos dois diários de Susan Sontag pela frente e David Rieff, no prefácio do primeiro, faz quase um pedido de desculpas por publicar esses três volumes. Justifica-se dizendo que a mãe não deixou instruções sobre o que fazer com seus papéis e admite que pensou até em queimá-los. Por sorte, desistiu da ideia.