ILUSTRADO
Segunda-feira, 21 de Maio de 2012, 20h:12
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SERTANEJO
Dez anos na estrada
João Carreiro e Capataz, dupla de tchapa e cruz que se projetou no cenário nacional, tem motivos pra comemorar
A dupla sertaneja cuiabana João Carreiro & Capataz está comemorando seus dez anos de estrada em 2012, com a repercussão positiva de seu último trabalho, lançado ano passado, Lado A Lado B. O disco duplo resultou de um projeto que demorou dois anos para sair. O disco 1, ou o Lado A, traz 22 músicas de raiz, sendo 15 inéditas de composição do próprio João Carreiro. Todas as músicas tocadas de forma rústica, como era feito antigamente, com quantidade reduzida de instrumentos. O disco 2, ou o Lado B, traz 18 músicas, incluindo todas as que foram lançadas após o DVD da dupla, formando o disco normal de carreira, mas com alguns diferenciais importantes para o entendimento dessa comoção. Para começar, o álbum é quase 100% autoral. 15 músicas do Lado A e todas as do Lado B são de autoria do João Carreiro. Na maioria das músicas, como único compositor. O cara é um daqueles artistas cuja criatividade e jeito próprio de levar a vida poderiam muito bem ser interpretados como exóticos. Ele é praticamente o que canta: bruto, rústico e sistemático. Um dos poucos artistas sertanejos que podem ser apontados como gênios do segmento, cujos pensamentos e ideias continuam sendo incógnitas que até os que com ele convivem custam a entender. Nestes dois discos, o João Carreiro dá um banho de conteúdo, de qualidade nas letras e nas melodias. Sabe quando deve escrever para o show e aplica isso no lado B, mas usa o lado A para poder expressar o lado tradicional cuja bandeira ele sempre fez questão de levantar e defender. No lado B, claro que alguns dos principais destaques ficam por conta das participações. Além das participações já conhecidas, como a da dupla Gino & Geno na música Mangueira, o disco traz ainda uma participação do Juliano César na releitura da música Melhor do Brasil, que a dupla já tinha gravado com João Neto & Frederico. Mas os destaques ficam por conta das músicas gravadas com a dupla Matogrosso & Mathias (Cadê) e Rionegro & Solimões (Sete Sentidos). Duas canções de fazer chorar e que trazem de volta um pouco da magia esquecida do sertanejo romântico. O que é estranho, já que não era essa a característica mais marcante da dupla João Carreiro & Capataz. Aliás, essa é a grande surpresa do lado B do disco. O lado romântico da dupla João Carreiro & Capataz, até então desconhecido, está evidenciado em pelo menos 5 músicas. A própria interpretação do João Carreiro na maioria das músicas, inclusive as do lado A, bem mais melódica e chorada do que de costume, já demonstra esse romantismo. Outra característica marcante da dupla que também ficou evidente nestes dois discos é a ausência de preocupação com a escolha de temas e linguagens previamente determinados por um padrão invisível pré-estabelecido na música. No lado A, por exemplo, há uma canção em homenagem ao Lampião, o rei do cangaço, outra feita pelo João Carreiro para homenagear seus vizinhos, e outra que sem dúvida é um tapa na cara da modernidade sertaneja conduzida de forma inconsequente. O verso pode até fazer sucesso, mas se tem brinco de argola e se canta e rebola não toca em minha vitrola foi repetido e viralizado exaustivamente por quem ouviu o disco desde o dia do lançamento, inclusive por aqueles a quem a música é dirigida. É que parte do público sertanejo é tão inconsciente do que escuta que não percebe ou finge não perceber que o verso é uma crítica ao modo como os próprios ouvintes tratam a música sertaneja e desrespeitam seus valores mais tradicionais. Mas já que está todo mundo elogiando esse verso e dizendo exatamente o que penso, eles também o fazem, sem nem refletir direito o que esse verso quer dizer. No lado B, a mesma coisa: temas até meio subversivos e/ou melodias aplicadas de maneira independente do que o mercado manda. A música Saudade Docê foi intencionalmente gravada na pegada antiga do rock, como as músicas do Elvis e similares. O rock também foi tema e melodia na música Roqueirinha, que intencionalmente não traz nada de sertanejo exceto a letra. A música É judiação é uma homenagem ao lambadão cuiabano, original da terra natal da dupla. Por conta disso gravaram parte da música nessa pegada e ainda convidaram o grupo Scort Som, tradicional representante desse estilo, para participar da música. A ausência de preocupação com os temas das músicas provavelmente alcança seu ápice na música Saci, uma sátira bem humorada aos usuários de maconha, vejam só. A última música do lado B, Sarafa, é uma homenagem ao pai do Capataz, que faleceu recentemente. O interessante no caso dessa música é que o Capataz não sabia da surpresa e só foi ficar sabendo no dia da gravação da música. Ele gravou inclusive a primeira voz na música, além de um agradecimento ao pai e ao João Carreiro pelo presente. *Texto editado a partir de original de Marcus Vinícius, publicado no Portal Blognejo