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ILUSTRADO
Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012, 21h:13

RESENHA

Desejos e medos, alicerces das cidades

Obra de Calvino anota que as cidades são o pano de fundo que permitem ao homem contemporâneo manifestar seus sentimentos mais sombrios

Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
Leveza, rapidez, exatidão, visibilidade e multiplicidade são os ingredientes que fazem de “As cidades invisíveis” de Ítalo Calvino a 62ª melhor obra da literatura universal do século XX. Quem deseja saber como se escreve um bom texto deve ler este pequeno tratado da vida moderna, um retrato do presente produzido em forma de fábula para que o leitor consiga apreciar com sensibilidade. Quem pensa que esta obra prima prioriza a geografia das cidades, vai ter uma agradável surpresa. O autor utiliza as cidades meramente como pano de fundo para falar da existência e dos sentimentos dos seres humanos que vivem nas cidades. De todos os autores do século XX, acredito que Calvino seja o que melhor compreendeu o que seria o século XXI. A obra é produzida com textos curtos, surpreendentes que prendem o leitor do início ao fim. Cada página possui um gosto diferente. Algumas são amargas, outras doces. Existem histórias azedas, secas, suculentas e, como é próprio de Calvino, páginas que fazem o leitor ter a certeza de que está diante de uma das mentes mais criativas da literatura. Comecei a ler Calvino na década de 90. A influência veio de um dos maiores mestres que tive na carreia acadêmica, professor Eron Brum. Vinte anos depois deste primeiro contato, ainda me surpreendo quando releio algumas histórias produzidas pelo escritor. Ouso defender que Ítalo Calvino deveria ser leitura obrigatória nas universidades e, por que não nas redações de jornais. Quem sabe os profissionais da escrita tenham algo a aprender com o estilo, forma e conteúdo das obras produzidas por um dos ganhadores de prêmio Nobel de literatura e que sabe como poucos o significado do que é ser jornalista. O autor mostra que uma cidade que não consegue se reinventar, definha e morre. Para Calvino nós conseguimos aproveitar de uma cidade, apenas a resposta que dá às nossas perguntas. Mas, como não temos mais perguntas para fazer às cidades, acabamos sendo engolidos, devorados e sugados pelos encantos dos arranha-céus que não nos permitem perceber que a selva construída de tijolo, ferro e cimento não está fora, mas dentro de cada ser humano que vem sendo devorado pela rotina do dia-a-dia. Se o leitor observar um pouco, verá que nas cidades, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam. Os mais atentos, conseguirão perceber que, em determinados momentos, a cidade não nos permite saber quem são os vivos e quem são os mortos. Calvino defende ainda que nos grandes centros urbanos, alguns se preocupam em deixar uma ilustre memória de si, enquanto outros passam a vida tentando encobrir as suas vergonhas. Se, “Enquanto Agonizo” de William Faulkner tem o começo mais brilhantes de toda a literatura, “As cidades invisíveis” de Ítalo Calvino possui o final mais fantástico, criativo e avassalador da história. Calvino (1990, p.150) defende no final de sua epopeia que “existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo e abrir espaço”. Se levarmos em consideração que o autor está falando sobre as cidades que vivemos, só esta frase vale toda a obra e por que não, o merecimento do Nobel que recebeu. Para concluir é importante ressaltar que as 55 histórias do livro foram agrupadas em 11 temas. As narrativas são as descrições das cidades que o viajante Marco Polo fez ao imperador Kublai Khan, durante suas missões diplomáticas pelo império mongol. É do diálogo entre os dois que se compõe este livro, uma obra completamente diferente de tudo quanto se escreveu até hoje. No final é possível perceber que as cidades não são pontos marcados num mapa, elas são feitas com sangue, dor e sofrimento das pessoas que morrem lentamente defendendo este modo de viver em sociedade. *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista e colabora com o DC Ilustrado

Edição EDIÇÃO 16967




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