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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 17 de Novembro de 2012, 14h:20

CRÔNICA

Deixa eu ver tu memória?

Juliana Curvo
Especial para o Diário de Cuiabá
Ele, ao qual não ouso dar nome, para manter a entidade criada ao seu entorno (talvez não saiba dar um), chegou ao Brasil de carona em caminhão e em Mato Grosso arrumou dinheiro para uma passagem de ônibus até São Paulo. Boliviano de nascimento, um rapaz latino-americano, com o bolso repleto de poesia. O pai acreditava em revoluções, justiça feita com as próprias mãos e coisas desse tipo. Matou um homem pra se defender, ou tentar arrumar um pedaço de chão, ou era parte de uma revolução. Ele nunca soube a explicação. O que sabe contar é do sumiço do pai, depois de matar: entrou na casa, que era um barraco armado, em terreno sem dono, juntou umas roupas e passou a mão suja na cabeça do filho, que era só um menino e o melhor empinador de cometas da região. Depois da morte do pai, passaram a andar de ponto em terra, de lugar pra onde, de qualquer parada pra outra cidade. Não tinham paradeiro e nem termo para o que faziam. Desse tempo, aprendeu a se virar pra comer e não sentir falta do amor da mãe, que era só uma mulher e a melhor fazedora de Llajua, um molho picante da região dos vales. De tanto andar, Ele cresceu, ganhou barba, cara de homem, mãos duras, cheias de calos. Trabalhou em construção, vendeu picolé de morangos, plantou flores, batata doce e até cuidou de gado. Foi um colega brasileiro que falou para Ele partir, ganhar o mundo, conhecer outros lugares. Esse colega contou do tempo em que foi criança e conheceu um japonês, Seu Alberto, comunista de carteira, ensinou muito sobre a América Latina e sobre o Che, morto ali na Bolívia. O brasileiro sabia ler e dizia estar de passagem e Ele criou uma utopia, com o encontro: aprender a ler, pois de passagem sabia que estava, desde o nascimento. Criou essa utopia, essa coisa que está distante e o move. É pra buscar o inacessível que se enche o peito de fluído (alguns vão insistir em chamar de ar) e se levanta o corpo e se re-nasce, todas as manhãs, carregando o peso de um segredo: acreditar que o posto ainda pode ser desfeito. Acreditar no amor, na mudança e ser Ele, maior que todas as revoluções. Ele demorou bastante para ter alguma ideia de como começar a ler, até que acreditou ser o Brasil, o lugar ideal para. Mas, como não sei fazer ficção muito cheia de irrealidades, e isso é uma crônica, Ele não aprendeu a ler coisa alguma quando chegou ao Brasil. Na verdade Ele continuou sendo a mesma coisa e ganhou apenas identidades a mais: estrangeiro e clandestino. Pelo Brasil trabalhou em construção, em fábrica de calça jeans e de tênis de borracha. Dormia em lugares bem baratos e o passeio mais bacana era ir ao zoológico. Lá, em um domingo de vento, de céu com nuvens e tons avermelhados, viu uma mulher que achou interessante. Era diferente, usava um lenço vermelho na cabeça e se houvesse alguma glória para o boliviano, seria o prazer de se interessar por essa mulher. A mulher estava sozinha e não olhava muito para os bichos. Ele a seguiu com o olhar (o olho dele no pescoço dela) e depois com os passos. A mulher parou em um banco, perto dos pássaros e começou a escrever em um caderninho, um bloco de anotações. Entoando uma coragem de revolucionário, Ele sentou-se no mesmo banco da mulher, tomou um gole de água e puxou assunto: - O que escreves? (A mulher olhou para o boliviano e deu um quase sorriso, antes de responder)- Anoto umas coisas. (O boliviano, encantado) - Eres esso um diario? (A mulher, desconfiada) - Talvez, quem sabe? Acho que são algumas memórias. (Ele, que carregava ainda poesia nos bolsos) - Deixa eu ver tu memória? (A mulher disse que não podia) - É muito íntimo. (Ele, honesto) - Eu não sei ler, mas gostaria. (Ela, de discreto interesse)- aprender a ler? (Ele, ainda honesto)- Si, aprender a ler e ensinar meus camaradas. Essa bruma insensata em que se agitam sombras, como eu poderia clareá-la? (R. Queneau). Outros já fizeram as perguntas que eu gostaria de ter feito. A mim restaria, caberia, finalizar estes escritos dizendo que o boliviano e a mulher se encontraram mais umas vezes, deram-se as mãos e juntaram os mundos que carregavam nelas e que Ele aprendeu a ler para ensinar seus camaradas e assim acreditou nas palavras e na operação de mudanças. Mas, eis que hoje, um dia qualquer, não estou com vontade de finais felizes: Depois da resposta do boliviano, a mulher levantou-se do banco, desejou-lhe boa sorte e disse estar de saída. Ele voltou para o seu quarto escondido, pois pegaria no turno da noite, na fábrica de tênis de borracha. Enquanto partia, o boliviano reparou que a moça usava jeans e calçava um tênis, com cores e formato familiares. *Juliana Curvo é professora de literatura e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16961




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