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ILUSTRADO
Quinta-feira, 17 de Julho de 2014, 19h:45

CRÍTICA - “ELA”

De apelo universal, um filme único

Novo filme de Spike Jonze conta muito sobre os anos que correm e os seres humanos, solitários em qualquer tempo

Juarez Compertino
Especial para o DC Ilustrado
Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original, além de mais outras quatro indicações, incluindo Melhor Filme, “Ela” (Her, EUA, 2013), de Spike Jonze, põe em foco a discussão entre mundo real versus mundo virtual, contrapondo homens e máquinas, com uma controversa história de amor que explora a natureza evolutiva — e os riscos — da intimidade no mundo moderno. Diretor de “Quero Ser John Malkovich”, “Adaptação”, “Onde Vivem Os Monstros”, Jonze, um mestre do absurdo feito corriqueiro, humano, pela primeira vez se arrisca a ser autor, sozinho, do roteiro original. E que roteiro! Num futuro não muito distante e nada futurista, Theodore Twombly (Joaquin Phoenix, ótimo), sujeito complexo e solitário, vive enclausurado em arranha-céus — seja no emprego ou em casa. Com um trabalho criativo, mas metódico, e, no mínimo, peculiar, na empresa BeautifulHandwrittenLetters.com, ele é pago para redigir cartas pessoais que serão assinadas por remetentes que não se sentem capazes de expressar seus sentimentos em palavras. O cara é um gênio para entender emoções alheias. Em casa, com o coração partido, vive numa bolha de insegurança, lutando contra uma depressão amorosa, porque está prestes a assinar o divórcio da mulher, a bem-sucedida Catherine (Rooney Mara). Como ela pode não mais querê-lo se ele ainda a quer tanto? Ao mesmo tempo, busca companhia nos games ultraviolentos e nas diversões sexuais, que também estão on-line. Nesse mundo dominado pela tecnologia, Theodore tem apenas um casal de amigos, Amy (Amy Adams) e Charles (Matt Letscher), com quem mantém diálogos e encontros que por vezes beiram à frieza. A monotonia parece tomar conta da sua pessoa, até que ele vê um anúncio que propõe um novo sistema operacional capaz de organizar toda a sua vida e aprender interação com o dono, através de inteligência artificial. Depois de adquirir o novo e avançado OS1 (ou sistema operacional, em português), que promete ser uma entidade intuitiva e única capaz de evoluir quase como um ser humano, entra em cena Samantha, com sua voz rouca e doce (dublada por Scarlett Johansson, em um papel peculiaríssimo, cujo corpo jamais aparece na tela) e as coisas começam a mudar. Na instalação, o sistema lhe faz algumas perguntas básicas (“como era sua relação com sua mãe?”) e mal ouve as respostas: aparentemente, os seres humanos são tão óbvios que meia frase já basta para categorizá-los. Os dias amargos acabaram e a felicidade ressurge na vida de Theodore com o prazer de conhecer Samantha, cuja inteligência e perspicácia são menores apenas que sua inocência. Ao instruí-la sobre o seu mundo, Theodore se conecta com sua própria humanidade, e isso o ajuda a enxergar as glórias e mazelas de se ter um corpo, uma cabeça pensante e, vá lá, uma alma também. E se ela fosse aquele certo alguém. Arrebatados pela descoberta do mundo um do outro, a amizade dos dois se aprofunda em um eventual amor um pelo outro na medida em que as necessidades dela aumentam junto com as dele. A interação entre eles é tão natural que rompe as barreiras físicas que existem entre os dois e o amor se torna real. Ligados por câmera e fone de ouvido, os dois saem para jantar, fazer compras, vão à praia, fazem sexo falado e, claro, discutem a relação. Theodore não é o único nesse enlevo: cada vez mais gente se apaixona por seus OS1, ou constrói com eles profundas amizades. Tão perto e tão longe. Mas logo os problemas aparecem, e eles não têm a ver simplesmente com o fato de a amada ser um sistema operacional. Irrealista? Longe de formarem um casal comum, Theodore e Samantha vêem despertar a discussão sobre até que ponto as máquinas e a tecnologia têm nos isolados em nosso próprio ser, dificultando ainda mais a comunicação real e direta entre pessoas que optam por estarem sempre conectadas à internet e aos seus gadgets. Sem nenhum tipo de julgamento moral nem ético, Jonze leva bem mais longe a discussão sobre relacionamentos no mundo digital. “Ela” mostra como a paixão quase nunca está ligada à realidade, mas à ideia do outro criada na nossa cabeça, ainda mais num tempo em que muito se fala (ou escreve, nas mídias sociais e da comunicação à distância) sem nada a dizer. E para isso não precisamos ir ao futuro, porque é o que acontece aqui e agora. Lançamento em DVD e Blu-ray, “Ela” é uma obra feita com sutileza e sensibilidade para abalar corações, é um filme de apelo universal e, ao mesmo tempo, único.

Edição EDIÇÃO 16966




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