ILUSTRADO
Sábado, 29 de Novembro de 2014, 14h:41
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AUDIOVISUAL
Curtas: uma análise
Nosso bravo Wuldson Marcelo fala um pouco sobre as dificuldades de exibição das histórias curtas e dá dicas de garimpagem virtual
Wuldson Marcelo
Especial para o DC Ilustrado
O Brasil tem um grave problema em relação à exibição de sua produção cinematográfica. E a situação se aproxima do insuportável quando pensamos na difusão de curtas-metragens. Longas de ficção e documentários nacionais já enfrentam dificuldades, que vão desde o financiamento até sua finalização, para encarar os blockbusters estadunidenses que chegam a ocupar mais da metade das salas de cinema do país. Para se ter uma ideia, em 2012, Os Vingadores, de Joss Whedon, e Battleship A Batalha dos Mares, de Peter Berg, estavam confortavelmente instalados em 1,4 mil das 2,2 mil salas existentes naquele ano. Sendo mais preciso, 1.000 salas projetavam os heróis da Marvel e outras 400, o filme estrelado pela cantora Rihanna. Neste fim de ano de 2014, Jogos Vorazes: A Esperança Parte 1 atinge um recorde ao tomar conta de cerca de 1.330 salas. Em um país de 2.800 salas de cinema, a produção protagonizada por Jennifer Lawrence ocupa quase a metade do mercado exibidor brasileiro. Esse recorde certifica a dominação de Hollywood no circuito comercial do país que deu à arte cinematográfica clássicos e obras-primas do quilate de Vidas Secas (1963), de Nelson Pereira dos Santos, Deus e o Diabo na Terra (1964) e Terra em Transe (1967), ambos de Glauber Rocha, O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla, Central do Brasil (1998), de Walter Salles, entre outros. Esse estado de coisas, é entendido pelo Governo Federal, em especial pela Ancine (Agência Nacional de Cinema), como uma ação abusiva, que desrespeita à diversidade de oferta e reduz a escolha ao establishment. Por outro lado, os empresários do setor julgam a estratégia pautada tão somente no livre mercado, no qual os filmes mais aguardados, com publicidade massiva e atores e atrizes emergentes ou consagrados, levam vantagem. Para tornar o cenário mais sombrio para o cinema brasileiro (ou para as produções sem os acessórios de marketing e investimento que conduzem os filmes ao patamar de rentáveis na bilheteria), há a concorrência das obras da Globo Filmes, que chamam a atenção do público com suas comédias de humor rasteiro e cinebiografias feitas para, mais tarde, se transformarem em minisséries televisivas. O lobby dos estúdios estadunidenses é avassalador. Independente de um debate acerca do gosto do público, há, sim, uma falta de convicção de defesa da cultura brasileira, seja por parte dos governantes ou dos empresários do setor cultural em especial dos donos de salas de exibição no que tange às produções cinematográficas made in Brazil. Ao falarmos de curta-metragem (seja de ficção ou documental) a conjuntura é ainda mais desanimadora. Uma ida ao cinema garante um longa de ficção e vários comerciais. Antes da exibição do filme principal, ocorre, pela tela, a promoção do encontro entre propagandas e espectadores. Porém, no Brasil, temos a Lei do Curta, que é um dispositivo legal (baseada no artigo 13 da lei federal 6.281, de 9 de dezembro de 1975) que regula a exibição de filmes brasileiros de curta-metragem nas salas de cinema do país. Segundo a lei, antes da exibição de um filme estrangeiro de longa-metragem, será estabelecida a inclusão de filme nacional de curta-metragem, de natureza cultural, técnica, científica ou informativa (...). Segue um breve histórico da Lei do Curta: a Lei não foi implementada como assegurava o Concine (Conselho Nacional de Cinema) devido a uma guerra de liminares instaurada pelos exibidores entre 1976 e 1978. A Resolução 37, de 14 de Fevereiro de 1979, garantiu, entre altos e baixos, o lugar dos curtas-metragens nos cinemas nacionais. De 1987 a 1989, o curta-metragem viveu seu melhor período, tendo sua exibição garantida pela Resolução 137, de 24 de Abril de 1987. Com a chegada do Plano Collor, em 1990, ocorreu a extinção do Concine e da FCB (Fundação do Cinema Brasileiro), responsável pelo sistema de operação do curta-metragem, além da Embrafilme, o que pôs fim a era dourada. No final de 1992, com a Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, começou-se a anunciar a retomada do cinema brasileiro, que se confirmou, em definitivo, em 1995. Mesmo com a Retomada e a Lei do Audiovisual (de 1993, que passou ao longo de mais de 20 anos por alterações e Medidas Provisórios para melhorar seu funcionamento), o curta-metragem permanece, em relação à distribuição e à exibição, como patinho feio da cinematografia brasileira (já que para a realização existe, mesmo com as diversas críticas que podem ser feitas, um Programa de Editais de Fomento à Produção Audiovisual Brasileira), ainda que conquiste prêmios internacionais, seja a porta de entrada de cineastas que, no futuro, realizarão obras significativas em longa-metragem e garanta a sobrevivência do desejo de experimentação que acompanha o(a) realizador(a) principiante ou veterano(a) da sétima arte. Para aliviar essa situação (mas não resolver, pois essa lógica perversa do mercado exibidor deve ser combatida, uma vez que lugar de assistir filme é no cinema, e o curta nacional precisa/merece encontrar seu público nos multiplexes da vida) temos os festivais de cinema (locais nos quais os curtas-metragens angariam seus admiradores e o reconhecimento da crítica), a TV por assinatura, espaços como o Sesc Arsenal (localizado no bairro do Porto) e a Internet. A rede mundial de computadores favorece a garimpagem e a descoberta de curtas que, se não fosse a possibilidade do compartilhamento, talvez passassem completamente despercebidos. Aproveitando o ensejo, seguem dez dicas de curtas-metragens de ficção que poderiam perfeitamente ter substituídos os comerciais e as chatices das propagandas antipirataria exibidas antes das superproduções e comédias românticas estadunidenses que invadem os écrans brasileiros. 1. Sadness (2013, 13 minutos), de André Schuck Um pai, ainda sob o efeito da perda repentina da filha, sequestra, há anos, meninas para celebrar com ele o aniversário da menina falecida. Contando com ótimas atuações do elenco, Schuck faz do cenário, a antiga mansão em que residiu o pai inconformado, um espaço expressionista, onde transtorno psíquico e clima claustrofóbico se alinham. Um thriller cruel e devastador. 2. Recife Frio (2009, 25 minutos), de Kléber Mendonça Filho A partir da queda de um meteorito sobre a cidade de Recife, Mendonça Filho realiza um dos curtas mais inventivos de todos os tempos, no qual crítica social se une a uma operação de imagens que remetem à história do próprio cinema. Recife Frio é um filme de questionamento, do olhar que não se conforma com a desvalorização do espaço público em nome da especulação imobiliária, que verticaliza a cidade e extingue os locais de encontro comunitário. 3. Saliva (2007, 14 minutos), de Esmir Filho Com um trabalho fotográfico que capta a transparência, seja na água, no espelho ou nos vidros que cercam os ambientes, para conferir um tom onírico, Saliva mostra as expectativas que cercam o primeiro beijo pela ótica de uma menina de 12 anos. Dúvidas e medos são acentuados por closes de lábios, línguas, narinas. A música original é de Fernanda Takai e John Ulhoa (líderes da banda Pato Fu). 4. Vida Maria (2006, 9 minutos), de Márcio Ramos Fantástica animação que revela o ciclo da falta de expectativas em uma região árida, onde a miséria e a morte dos sonhos são heranças deixadas de geração a geração. Esse paradigma contribui para que o destino de tantas Marias seja reduzido ao árduo trabalho cotidiano de evitar à fome e reproduzir histórias de vida. 5. Com as Próprias Mãos (2008, 15 minutos), de Aly Muritiba Entre cenas de tortura e flashbacks que reconstituem o brutal desfecho de um sequestro, Com as Próprias Mãos apresenta o ato desesperado (terrível) de uma mãe para descobrir o paradeiro de seu filho. Com uma interpretação impecável de Ludmila Nascarella e uma edição que intensifica as nossas reações a uma situação-limite, o filme de Muritiba é um exercício de revelação da perversidade que nos habita. 6. A História da Eternidade (2003, 10 minutos), de Camilo Cavalcante A humanidade, em sua brutalidade e capacidade de encantamento, retratada em um falso plano-sequência que expõe poesia e visceralidade, de forma a engendrar um tour pela história da civilização ocidental, vivenciada em pleno sertão nordestino. É o trágico em seu substrato mais inexorável: o da repetição. 7. O Amor do Palhaço (2004, 15 minutos), de Armando Praça Baseado na crônica O Amor do Palhaço, de Antero Pereira Filho (que, por sua vez, é inspirada em uma história real), o curta de Armando Praça apresenta Grete (um notável desempenho de Luis Miranda), uma personagem marginal, palhaço-dançarino e personalidade da praia de Canoa Quebrada. Homossexual casado com o palhaço do circo onde trabalha, Grete abandona o picadeiro e decide se firmar no litoral cearense. Em tom melancólico, o trágico desfecho de Grete dá início ao percurso que mostra seu último dia no circo e seus últimos momentos de vida. 8. Hóspedes (2008, 15 minutos), de Cristiane Oliveira Após ser atropelada, Lara acorda, com uma das pernas engessada, na casa de um desconhecido. Por meio das imagens captadas pela câmera de vídeo da jovem, que ela assiste com recorrência, descobrimos sua tristeza. O dono da casa é Renato, um anão extremamente prestativo e que tem uma namorada residente em outra cidade. Filme metafórico, Hóspedes capta sentimentos de não adequação e angústia, por intermédio de uma narrativa delicada. 9. Café com Leite (2007, 18 minutos), de Daniel Ribeiro Após a morte dos pais, Danilo passa a ser o guardião do irmão caçula, Lucas. Vivendo uma relação amorosa com Marcos, Danilo terá que administrar o estranhamento do irmão e o deslocamento do amante com a nova situação. Café com Leite não trata de autoafirmação (do amor que não ousa dizer o seu nome), mas de mudanças, afetividade e adaptação. Daniel Ribeiro é diretor do curta Eu Não Quero Voltar Sozinho (2010) e do longa Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, sucesso nacional de 2014. 10. Noite de Sexta, Manhã de Sábado (2007, 15 minutos), de Kléber Mendonça Filho Em preto e branco, Kléber Mendonça Filho fala de incomunicabilidade, distância, ansiedade, silêncio e intimidade na relação entre Pedro e Dasha, durante um telefonema do rapaz para a jovem, que fala inglês (e reside em um país estrangeiro), acrescentando aí mais um elemento de torção às aspirações dos amantes, fazendo prevalecer o não dito. Repleto de cortes e com uma desorganização do espaço que traduz a espiral de sentimentos presa na garganta, Noite de Sexta, Manhã de Sábado é uma história de amor sobre as ranhuras da separação.