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ILUSTRADO
Terça-feira, 23 de Novembro de 2010, 20h:08

DVDs

Crime e castigo na Alemanha pré-Nazismo

”A Fita Branca”, de Michael Haneke, e “Lunar” de Duncan Jones, são os filmes que passam pela nossa avaliação nesta quarta-feira. Leia, depois assista...

Juarez Compertino
Especial para o Diário de Cuiabá
Conhecido pelas obras poderosas, o diretor austríaco Michael Haneke (“A Professora de Piano”, “Funny Games – Violência Gratuita”, “Caché”) conseguiu de novo fazer um filme de alto impacto. Afiadíssimo, ele compõe em “A Fita Branca” (Das Weisse Band, Áustria, 2009/Imovision) uma história complexa e de fundo misterioso permeada de violência, culpa, segredos e tensões raciais. Haneke pode até exagerar no número de personagens, mas, acredite, todos têm papéis fundamentais no enredo. Entre eles, está um professor de 31 anos (Christian Friedel), que serve também de narrador, e é apaixonado por uma babá (Leonie Benesch). Há ainda uma família de fazendeiros, outra de lavradores, um pastor (Ulrich Tukur) bastante rígido na educação dos filhos... Perturbadora e intrigante, a obra não é de fácil assimilação nem de resolução para contentamento geral. Isso não significa, contudo, perda de qualidade. Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes e Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, “A Fita Branca” investiga a origem do crime de ódio mais filmado e analisado do século XX, o Holocausto. No norte da Alemanha, em 1913, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, um vilarejo protestante adota princípios absolutistas, sejam políticos ou religiosos. Nesta comunidade, em que cada família tem em média cinco filhos, as crianças são criadas num ambiente de culpa e castigo, sem um pingo de demonstração de amor por parte dos pais – de novo, Haneke não é muito de crer no ser humano. Vítimas de punições das mais leves até as mais severas, as crianças são sempre cobradas a terem um comportamento exemplar. Só um lembrete de pureza e boa educação, a fita branca do titulo, que o pastor força dois de seus filhos a usar, como sinal de vergonha por pecados cometidos, exemplifica a rígida disciplina enraizada no local. Estranhos acontecimentos começam a acontecer perturbando a calma da vila – um homem quase morre depois que um fio é atravessado em seu caminho e ele cai do cavalo; um celeiro é incendiado; duas crianças são seqüestradas e torturadas –, sem que ninguém saiba quem são os culpados. Gradualmente, estes incidentes isolados tomam a forma de um sinistro ritual de punição, deixando seus moradores em estado de pânico. O que se esconde por trás desses acontecimentos? Qual é a identidade do criminoso? Haneke faz um cinema que apresenta perguntas e não respostas. O diretor analisa a origem da maldade nos pequenos gestos e olhares, assim como naquilo que é dito e pensado, nas ações e intenções mais intimas de cada um dos integrantes dessa sociedade opressora (e assustadora), que, a cada minuto, revelam facetas inesperadas e nos faz repensar certas ações. É o estudo de um comportamento contagioso, uma epidemia que se espalharia por toda a Europa, resultando no Nazismo. A antevisão da futura etiquetação antissemita de judeus nos princípios da Segunda Guerra Mundial que, como sabemos, está diretamente relacionada à Primeira, “A Fita Branca” é um filme envolvente, brilhante, extraordinário. Com enquadramentos rígidos e austeros que não deixam muito espaço para o respiro, dos personagens e do espectador, Haneke constrói cenas moráveis. Assista a do passarinho ou a do plano final, da missa na igreja, com sua arquitetura que lembraria depois um salão do terceiro Reich, e não fique sem fôlego, se puder. Destaque para a belíssima fotografia em preto e branco de Christian Berger, indicada ao Oscar, que deixa o filme com cara de “antigo”.

Edição EDIÇÃO 16961




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