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Cuiabá MT, Sexta-feira, 12 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 20 de Abril de 2012, 20h:04

CRÔNICA

Concepções Criativas

Luís Gonçalves*
Especial para o Diário de Cuiabá
Houve uma época em que o autor ouvia a mesma pergunta: “Como é o seu processo de criação?” Sempre tive a infelicidade de ter amigos pensantes e super oxigenados. Essas pessoas são intrometidas e adoram aprisionarem a vítima em meio o tédio. Possuem a capacidade de lançarem perguntas que não serão respondidas. Falta eco. Pior que são insistentes. Querem a todo custo arrancarem as respostas das vísceras do infeliz. Que indefeso conta a velha fábula da pergunta interessante. Perturbado, um dia decidi escrever uma peça teatral que demonstrasse essa situação. “A Ópera da Rezadeira” evidencia que nem sempre aquilo que seria acaba sendo. Nem sempre o autor escreve aquilo que realmente pesquisou e ás vezes nem mesmo assume qualquer relevância com a investigação em questão. O episódio é narrado por dois personagens. Dinanã, um cidadão típico do lugar. Porém, contaminado pelas ideias perigosas. Estudioso. Capelão, amigo de infância do Dinanã, devotado e fiel aos costumes religiosos. Estacionado numa época de rezas, milagres e devoção. O cenário é uma época de intensas mudanças onde Capelão insiste manter os princípios cristãos em evidência. Tendo a crença abalada se via obrigado a penhorar as convicções numa antiga rezadeira conhecida como Dona Ciência. “Conta a lenda, coisa que não acredito nem por piedade. Também não arreveso, batume é que me faz cristão!, que Dona Ciência, cria dali do Largo do Pito Aceso, foi a única rezadeira da redondeza que peitou o tinhoso munido somente da sagrada fé. Falo pouco mais não duvido. Mulher formosa e de um pinote de língua faceiro. Do feitio do canto de uma juruti no cio. Posso dizer pela matriz da cara, que a dita cuja é uma sagrada rezadeira instruída por Deus e domada pelo Divino Espírito Santo desde o ventre materno. Pois então não vê que a sujeita é devota encarnada de todos os santos do altar? Pois fique sabendo tu, meu amigo Dinanã, que a Dona Ciência foi uma redenção poética na vida dos santos cá na terra como no céu. De sorte que a vida dos santos deixou de ser aquelas amenidades que todos já conhecem pela vaga lembrança. Ela era um espetáculo bento da maior qualidade. Uma virtuosa do altar. Dona Ciência dava conta de um tudo. Na falta de um homem que se prestava podia muito bem contar com ela e seu rol de orações. Cansei de ver com estes olhos que terra fria um dia há de comer a bicha arrancar filho empacado de bucho de mulher sem jogo de quarto apenasmente com um safanão e algumas rezas bem colocadas. Veja lá muito bem que isso era feito menor diante de algumas façanhas que cá não fica bem contar. Nas vistas doentes desses curiosos. Pessoas que bebe o mal pelos olhos do pau da cara. Não faz muito bem. Posso dizer no estirão da língua, que disso não faço nenhuma economia, que de santo não entendo nada. Mas bem que sei, que a Dona Ciência mantinha lá as suas tretas muito bem afiançadas com o próprio santo Cristo.” Capelão juntava vários cacos e construía incríveis causos fundamentando a sua fé. Ao contrário do amigo Dinanã que era aberto as novidades e fazia uma leitura diferenciada do amigo. “Lá vinha Capelão com a mesma prosa. Dava de conta desse caso até a boca escumar. Piolho de mãe desconhecida se arranjava na casa de Sêu Zé da Costa Fina, logo ali depois da Ponte da Confusão. Mas não passava de um leitão manso de conversa fiada e meia. A criatura batia língua até mesmo quando andava só. Nutria prazer imenso em boquejar com o ócio. Mas a contenda se estendia quando se encontrava com Dinanã. Um ilustre vendedor de picolé ali das imediações do Palácio da Instrução. Costumava dizer que Dinanã ficou “lelé” da cuca de tanto estudar. — Muita leitura sapeca o juízo! — Dizia. Pelo que sei os dois possuíam a língua desajustada seja lá o motivo fosse. Ao redor dos dois havia sempre uma roda de curiosos e adeptos da contenda. Todos de orelha em pé na prosa que levava as horas cansadas do dia. Na infância seguiu a velha Dona Inocência (Dona Ciência!) para tudo quanto é lugar que a rezadeira entortasse a ponta do nariz na batida das ditas rezas de terço. As ladainhas da velha para ele era uma sagrada devoção. Cresceu amante desse folguedo de altar. Um teatro folclórico de louvores e devoção. Mas com a chegada da televisão o povo acabou deixando morno no canto essa tal religiosidade. E a reza da velha aos poucos entrou no túnel do esquecimento. Lá pela bainha do tempo a velha já havia rezado as ditas ladainhas num quarto e meio da Vila Bom Jesus de Cuiabá e um terço e meio dos arredores.” Essa narrativa pertence ao desconhecido investigador. O propenso autor que tenta entender o processo finalizando o espetáculo cênico. Porém, o mergulho desperta outras ansiedades que crescem e assumem relevâncias que desviam totalmente o objetivo. Coadunando com o perplexo Dinanã. “O amigo Capelão está coberto por uma gorda camada de razão, mas isso não explica a santidade dessa tal rezadeira. Afinal de conta estudos avançados nos permite entender certos fenômenos que a princípio aparecem confusos.” Ás vezes pequenos detalhes despertam curiosidades e desviam totalmente o rumo de um estudo que poderia ser fatal se levado adiante. Porém, ficam pelo meio do caminho sufocado por outros pesos e novas medidas. A Ópera da Rezadeira é um volume entrecortado de ideias, teoria e concepções criativas que nunca será encenado. Faz parte de um compêndio que não possui força dramática. A intenção do autor era simplesmente um estudo objeto. Uma peça apenas para ser lida. Curiosamente, é sempre bem-vinda nas salas de aulas como estimulante de debate da crendice criativa do cético Capelão. Luís Gonçalves – Publicitário e Escritor e colabora com o Dc Ilustrado. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16961




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