ILUSTRADO
Segunda-feira, 30 de Julho de 2012, 20h:59
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RESENHA
Civilização e barbárie dos colonizadores
Para Conrad, a vida é um arranjo de lógica cruel para um objetivo fútil. O que se pode esperar dela é algum conhecimento de si mesmo
Jacir Alfonso Zanatta*
Especial para o Diário de Cuiabá
Lá fora faz muito frio. O clima mudou rapidamente e uma garoa cai lentamente durante toda a noite. O clima é convidativo para dormir, mas são cinco horas e ainda não consegui pregar os olhos. Estou cansado e preciso repousar um pouco para poder me manter acordado durante o dia que está para nascer. Olho pela janela de minha biblioteca e percebo a escuridão da noite e o silêncio da madrugada. Realidade e ficção se confundem em minha mente. O cansaço toma conta e não sei mais se o frio e a escuridão das trevas são algo externo ou interno. O que me anima é que um novo dia está para se iniciar e após aproximadamente doze horas de leitura consigo concluir o livro O coração das trevas de Joseph Conrad, 12º da lista dos melhores livros de literatura do século XX. Para Conrad a vida é uma coisa esquisita, classificada por ele como um misterioso arranjo de lógica cruel para um objetivo fútil. O máximo que se pode esperar dela é algum conhecimento de si mesmo que chega tarde demais uma colheita de inextinguíveis arrependimentos. O exemplo acima mostra claramente que o texto de Conrad é carregado de subjetividade com forte apelo psicológico. Seus personagens, embora simples, carregam toda uma carga emocional que prende o leitor ao texto. A forma clara de produzir literatura desenvolvida por Conrad só é possível porque ele faz dos seus livros, a descrição dos estados emocionais que ele vivenciava em suas viagens. Conrad é considerado pela crítica mundial um dos maiores escritores de todos os tempos, e sem dúvida um dos mais notáveis da língua inglesa. Possui três livros entre os cem melhores livros de literatura do século XX, feito ultrapassado apenas por William Faulkner com cinco obras. Os conflitos internos de cada ser humano fascinavam o escritor. Ele conseguiu como ninguém mostrar os limites entre a barbárie e a civilização. O coração das trevas, escrito em 1902 é considerado sua obra prima e uma crítica ao imperialismo europeu, que, a pretexto de civilizar as regiões ditas atrasadas do mundo, escravizou e saqueou a maior parte do planeta, causando às mais sangrentas guerras. Porém é importante ressaltar que na época em que este livro foi escrito, o imperialismo não era considerado um palavrão como se considera hoje. Para Conrad o modelo capitalista europeu não conquistou terra nenhuma, mas tomou pela força de todos aqueles que de alguma forma eram diferente deles. Mas para o autor, a terra nada mais é do que o lugar onde todos precisam viver. O livro é o relato feito pelo capitão Marlow sobre seu encontro com Kurtz, personagem principal, que em vez de civilizar a África, acaba barbarizado e com isso, mostra para o leitor que afinal, ele não é tão superior quanto pensava ser. A obra mostra que quando o homem entrar no coração da selva a selvageria entra no coração dele. Kurtz é, na verdade, o apóstolo da civilização, no fundo da inexplorada selva africana. Conrad acreditava que somos errantes numa terra pré-histórica, que possui aspecto de um planeta desconhecido e que reside no interior de cada um. Por isso, os pontos essenciais estão sempre localizados abaixo da superfície. Assim, é preciso aprender a ver e o que está além do que meramente é mostrado. Conrad acreditava que todos vivem como sonham viver. Mas se a tempestade e o frio não passarem e se por acaso o dia não voltar a brilhar então é preciso tomar cuidado. Você pode estar entrando no coração das suas trevas interiores onde é possível que você encontre um rio vazio, um grande silêncio ou uma floresta impenetrável com ar quente, denso, pesado, parado e onde não há alegria na luminosidade do sol. Ali, na escuridão, os rios correm desertos e vão direto para dentro das distâncias encobertas com colheitas de arrependimentos. INFORMAÇÕES BIOGRÁFICAS Józef Teodor Konrad Korzeniowski nasceu na Ucrânia em 1857 e faleceu na Inglaterra em 1924. Teve o primeiro contato com a língua inglesa enquanto seu pai, no exílio imposto pelos russos, traduzia autores como Shakespeare e Victor Hugo. Aos 17 anos abandona a escola para se tornar aprendiz de marinheiro na França. Em 1878 entra na marinha inglesa e consegue cidadania na Inglaterra com o nome de Joseph Conrad. Só publica seu primeiro livro depois de se aposentar da marinha aos 38 anos. Considerado um dos maiores escritores da prosa inglesa. Entre suas principais obras estão Lord Jim (1900), Nostromo (1904), O agente secreto (1907) e Sob os olhos ocidentais (1911). *Jacir Alfonso Zanatta é jornalista e colabora com o DC Ilustrado