ILUSTRADO
Sábado, 16 de Agosto de 2008, 15h:00
A
A
CONTO
Circunstâncias adversas de uma fila de banco
Danilo Fochesatto*
Especial para o Diário de Cuiabá
Quando, por algum distinto milagre artificial, chegou minha vez de ser atendido, cheguei bem perto do rosto enrugado do funcionário do caixa e gritei, gritei com força, baforando como treminhão carregado subindo serra na marcha reduzida. Eu tenho halitose? Parece feitiçaria, mas esperar horas na fila me transformou. Tudo porque metade dos clientes, cito os analfabetos digitais inúteis como um quadro atrás da porta, poderia estar utilizando ou o computador ou o caixa-eletrônico para resolver suas pendências. Dobrando, assim, a velocidade de andamento da infame linha reta de gente desgraçada que tem de obrigatoriamente estar ali; diminuindo (de acordo com fontes seguras do ASMA, Admirável Sindicato dos Mágicos Anônimos) em vinte por cento o número de enfartados por causa da cruel espera em filas e que, segundo as mesmas pesquisas, deram entrada nos hospitais recentemente. Entrada pela porta de emergência. Saída triunfal de rabecão. Por outro lado e serei franco como um cassetete autoritário , dois terços da outra metade, isso mesmo!, corresponde a parcela de sádicos que adora uma fila e não perde a oportunidade de filiar-se a uma só para ter a atenção (forçada, vale lembrar) de alguém, a frente ou atrás, a quem lamuria sobre as mazelas do nascimento, da vida, da morte e do que mais ocorrer de indigno no intervalo desses fatos marcantes. No fim, o número restante abrange as pessoas normais, tão suscetíveis a transformações como eu ou os bichos-de-seda. Sendo assim, diante do silêncio abissal da agência, tomei a liberdade de responder minha própria pergunta. Não, eu não tenho halitose! E digo mais. Farei uma mágica que dará cabo ao aborrecimento de todos nós, cidadãos molestados pelas filas. Criarei um clima de festa, de confraternização e de pura alegria aqui nesta agência. Pulei sobre o guichê número três e, rodopiando num só pé, tirei a cartola da cabeça com movimento inspirado em Chaplin. Atirei no chão uma bombinha especial que fez subir fumaça azul e amarela. Enfiei a mão no bolso e atirei caramelos, narizes de palhaço e cartas de baralho para a platéia. Pronto, estava aberto o espetáculo. Respeitável público, para mostrar-lhes a grandiosidade de minhas mágicas, tirarei agora um lindo coelho da cartola. Meti a mão na cartola e segurei o peludo pelas orelhas. Estavam bem quentes. Minha mão doía, mas não reclamei. Agüentei firme. A cartola exalava uma fumaça estranha. O roedor entalou logo em seguida. Recrutei uma jovem ajudante no público. Juntos conseguimos retirar o coelho da cartola. O ergui, contente, e me curvei, reverente, esperando receber a ovação das palmas dos clientes. Vejam! O bicho está em chamas! denunciou algum mal-caráter sem instrução e incapaz de descobrir a diferença entre o dia e a noite, tampouco reconhecer o talento de artistas profissionais. Acalmem-se, meus caros... disse-lhes, tentando, em vão, conter as adversidades da circunstância. O alarme do banco soou. Um bebê pôs-se a chorar. As luzes principais foram substituídas pelas de emergência. A platéia, em geral, agitou-se. Destacando-se da massa uniforme, um sujeito robusto, segurando o malote de sua firma debaixo do braço, avançou em câmera lenta e pegou o extintor de pó químico. Rompeu o lacre com os dentes e pôs o negócio para funcionar. Dirigiu o jato branco no coelho. Depois, passou a derramar a coisa em mim. De imediato, aquilo me deu tosse. Dois homens fardados, velhos conhecidos, apareceram para restabelecer a ordem provinciana. Retiraram-me do palco, imobilizando as valiosas mãos nas costas e confiscando meus utensílios de fabricar o extraordinário. Os dois começaram a me arrastar para fora do banco. Daí todo mundo ficou em silêncio, me assistindo. O peculiar barulho do solado dos borzeguins dos oficias, em atrito com o chão polido, atravessando o salão, despertou-me idéias para uma próxima apresentação. Mas de tanto respirar o pó químico do extintor minha vista foi escurecendo gradativamente. Tentei recapitular a idéia que tivera para o novo espetáculo, mas antes de me dar conta, a consciência se esvaia. Desmaiei ouvindo a ruidosa salva de palmas dos cidadãos presentes. Alguns dias mais tarde, o carcereiro me confessou que os aplausos eram para a equipe de salvamento que, com sucesso, reanimara o coelho queimado. *Danilo Fochesatto é estudante de comunicação, contista e colabora com o DC Ilustrado