Danilo Fochesatto*
Especial para o Diário de Cuiabá
De madrugada, ao atinar para o delito sofrido, me dirigi tranqüilamente à delegacia. Não houve espera. Fui logo atendido. Durante a confecção do boletim de ocorrência, a escrivã, antes mesmo de solicitar a descrição dos fatos sinistros, perguntou minha atual ocupação. Após dois minutos de reflexão, lhe digo que sou mágico. Dos bons. Com registro no sindicato. Forneço a seqüência de números, pois a memorizei. Ah, é? No duro? Juro pela minha cartola roubada. Sem rodeios, pediram para eu fazer algo que comprovasse a declaração. As circunstâncias são essas: num minuto se é inocente, noutro, culpado. Entendi... respondi ao investigador, sem entender nada. Meus olhos pousam sobre um frasco sobre a mesa. O pego. Faço desaparecer todas as pílulas de uma só vez. E o fiz sem mastigar, apenas engolindo-as a seco. Muito estudo para se fazer uma mágica tão boa. Viram? Dois homens fardados entraram na sala derramando hostilidade pelas portas dos olhos. Algemaram-me enquanto eu vomitava pela delegacia. Viram? Eu disse que era mágico. Foram vocês quem pediram uma prova. Agora me soltem que faço essa sujeira desaparecer. Mas eles eram irredutíveis em suas posturas desconexas. Não me soltaram até o dia em que os problemas inerentes à linguagem e, portanto, às relações humanas desapareceram. Não paguei fiança para sair. Não houve burocracia. Estranhas circunstâncias. Fui logo liberado. Em compensação, tive de assinar um documento alegando meu comprometimento em parar de comer cactos. *Danilo Fochesatto é pseudo-músico, contista, gente boa e colabora com o DC Ilustrado