ILUSTRADO
Terça-feira, 31 de Março de 2009, 20h:34
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MOSTRA
Cinema do bom no Morro
Prossegue a comemoração dos 100 anos de cinema em MT com a projeção de mais dois clássicos no Museu do Morro da Caixa D´Água Velha
A programação dos 100 anos de cinema no Morro da Caixa d´Água recebe hoje mais duas obras primas: Ladrões de Bicicleta (Vittorio De Sica) e Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder). Os filmes são amplamente divulgados pela internet como representantes legítimos do que há de melhor no cinema de todos os tempos. A sessão começa às 18h com Ladrões, no intervalo contará com uma palestra informal do professor da Universidade Federal de Mato Grosso, Moacir Santana, sobre o som no cinema (algo em torno de 30), e segue a segunda sessão com Crepúsculo. Ladrões de Bicicleta (Vittorio De Sica, Itália, 1938, 90 min.) é um filme clássico tido como um dos melhores filmes italianos já feitos, especialmente se levarmos em conta o estilo neo-realista. O filme é rodado nas ruas e bairros populares de Roma e além dos cenários naturais, apresenta um excelente roteiro, a direção segura do mestre De Sica e uma fantástica trilha sonora criada pelo compositor Alessandro Cicognini. Na história Antônio Ricci é um pobre pai de família que procura trabalho, qualquer um que seja, pois está desempregado há muito tempo. Depois de muitas tentativas, no difícil cenário do pós-guerra na Itália, consegue um emprego como afixador de cartazes, para o qual, faz-se necessário possuir uma bicicleta. Ele e sua família, há meses na miséria, tinham empenhado sua única bicicleta. Assim que conta à sua esposa o sucedido, esta decide penhorar os lençóis de sua cama para poder levantar a bicicleta para o marido poder trabalhar. Mas, para piorar a situação, no seu primeiro dia de trabalho, sua bicicleta é roubada. Ele decide, então, denunciar o roubo junto à polícia, que não o leva a sério, aconselhando-o que a procure ele mesmo. Antonio, com seu pequeno filho, Bruno, ao lado, começa a difícil tarefa de localizar sua bicicleta, pelas ruas aglomeradas e movimentadas de Roma. Num momento de desespero, ele tenta roubar uma bicicleta na porta de uma fábrica, sem sucesso, sendo preso e humilhado sob as vistas do pequeno Bruno. Um drama reconhecido com diversos prêmios: Academia Britânica, Melhor Filme; Globo de Ouro, Melhor Filme Estrangeiro; Sindicato dos Jornalistas Italianos, Melhor Filme, Direção, Roteiro, Fotografia, Trilha Sonora e História. O filme também ganhou o Oscar especial de melhor filme em língua estrangeira, o BAFTA de Melhor Filme, Bodil de Melhor Filme Europeu e o Prêmio Especial do Júri, no Festival de Locarno. Já Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder, EUA, 1950, 110 min.) trata-se de um retrato metalinguístico sobre a indústria Hollywoodiana. O drama da lendária estrela do cinema mudo que perdeu o bonde da história continua a ser o retrato mais ousado e sarcástico da vida das celebridades em Hollywood. Mas o filme vai muito além disso; é um drama sobre a ambição humana como poucos cineastas foram capazes de produzir. Segundo o crítico Rodrigo Carreiro, no site CineRepórter, Cada plano, ator, diálogo, roupa, cenário ou locação se encaixa no filme como um Lego recém-comprado. Um filme não pode ser mais perfeito do que essa obra-prima. Rodrigo aponta que curiosamente o filme é raramente citado pelos especialistas como um dos grandes filmes do mestre austríaco Billy Wilder. Ele acredita que isso se deve ao grande número de clássicos que Wilder dirigiu, por exemplo, as comédias Quanto Mais Quente Melhor e O Pecado Mora ao Lado, que eternizaram a imagem do mito Marilyn Monroe, e o noir Pacto de Sangue, um dos melhores filmes policiais já produzidos. Ainda segundo a bela resenha do Rodrigo o cineasta mirou em um alvo relativamente pequeno a vida excêntrica e desconectada da realidade vivida pelas estrelas do cinema e acertou em outros, muito maiores. Crepúsculo dos Deuses reflete sobre ambição, cobiça e o preço da alma, ou da dignidade, de um homem. Estou falando de uma espécie de Fausto do século XX. O filme usa a narrativa em off do ponto de vista de um cadáver para tecer a sua crítica contundente. Tudo começou quando Joe Gillis (William Holden), um roteirista fugindo de representantes de uma financeira que tentava recuperar o carro por falta de pagamento e se refugia em uma decadente mansão, cuja proprietária, Norma Desmond (Gloria Swanson), era uma estrela do cinema mudo. Quando Norma tem conhecimento que Joe é roteirista, contrata-o para revisar o roteiro de Salomé, que marcaria o seu retorno às telas. Norma mora numa enorme e decadente mansão na Sunset Boulevard, uma avenida chique de Hollywood que empresta o nome ao filme (em inglês). Tem um macaco de estimação que morre de velhice e ganha um enterro de gala no jardim, um automóvel caríssimo da década de 1920 e um mordomo estranho e um tanto mórbido, Max Von Mayerling (Erich Von Stroheim). Gillis aos poucos vai se tornando um canalha, mas não percebe isso e a própria platéia ficaria sem perceber, se o drama interior do personagem não possuísse uma ressonância tão forte na excêntrica e teatral Norma (Eu sou grande, os filmes é que ficaram pequenos, afirma a atriz, num dos momentos mais memoráveis do filme) e nos dois coadjuvantes. Entre as premiações: três Oscars, nas seguintes categorias: Melhor Direção de Arte - Preto e Branco, Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro. Foi ainda indicado em outras 8 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (William Holden), Melhor Atriz (Gloria Swanson), Melhor Ator Coadjuvante (Erich von Stroheim), Melhor Atriz Coadjuvante (Nancy Olson), Melhor Edição e Melhor Fotografia - Preto e Branco. OI filme também ganhou quatro Globos de Ouro, nas seguintes categorias: Melhor Filme - Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz - Drama (Gloria Swanson) e Melhor Trilha Sonora. Palestra O professor Moacir Santana vai falar sobre a histórica inserção do som no cinema. Como os filmes eram feito e os avanços que a tecnologia permitiu e como isso refletiu no trabalho dos atores. Segundo Moacir os atores do cinema mudo estavam acostumados a uma forma de interpretar e com as mudanças muitos não acompanharam o processo caindo no esquecimento. O professor pontua que o primeiro filme sonoro é O cantor de jazz rodado entre 1925/1926. Apesar de terem havido outras experiências anteriores, este é o marco comercial considerado, mesmo tendo ele seguido a estética do cinema mudo com a inserção do som apenas quando o cantor do filme se apresentava. Mesmo com o processo permanecendo praticamente o mesmo: Tela/Plateia/Projeção, a ambiência e o layout proporcionado, ou melhor, exigido pelo som talvez seja uma das maiores forças de mudança nas salas de cinema dado que o som tornou-se peça fundamental para gerar empatia e sentimentos nos espectadores.