ILUSTRADO
Quinta-feira, 06 de Agosto de 2009, 21h:39
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FESTIVAL
Cine Ceará premia a juventude à deriva
O Cine Ceará, ao contrário da maioria dos festivais, não tem prêmio do júri popular. Se tivesse, por certo, iria para o filme que biografou Humberto Teixeira
Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
Em decisão equilibrada, o júri premiou os dois melhores filmes da competição. Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte, ficou com o primeiro lugar, e o documentário Humberto Teixeira - O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, veio em segundo, ganhando ainda de brinde (simbólico) a consagração do público na mais animada sessão deste festival. Pena que o Cine Ceará, ao contrário da maioria dos festivais, não tenha prêmio do júri popular. Tivesse, por certo, iria para o filme de Lírio, produzido pela filha de Humberto Teixeira, a atriz Denise Dummont, a pessoa mais emocionada na festa de premiação. Tão comovida que ensaiou cantar uns versos de Que Nem Jiló, parceria de seu pai e Luiz Gonzaga, ao receber um dos troféus Mucuripe. Numa edição em que os filmes brasileiros foram bem superiores aos ibero-americanos, a concentração nos dois principais premiados parece normal. À Deriva, de Heitor Dhalia, ficou apenas com o prêmio de música. Os hispânicos lembrados foram o mexicano Coração do Tempo, o cubano Deuses Quebrados e o argentino Homo Viator. O representante peruano, O Prêmio, e o brasileiro Pequeno Burguês - Filosofia de Vida saíram sem nada. Este último é uma cinebio de Martinho da Vila, que esteve em Fortaleza e encantou a todos. Mas simpatia do biografado não é quesito cinematográfico e o filme estava na seleção para trazer um astro popular à cidade. Se Nada mais Der Certo é uma história de juventude à deriva, ambientada em São Paulo. Não é um filme redondo. Sustenta-se mais nas arestas, nos paradoxos, do que no equilíbrio formal. Belmonte conjuga uma câmera exasperada à utilização inusitada do som. É sua obra mais madura. Já O Homem Que Engarrafava Nuvens pode ser considerado três filmes em um. Resgata um personagem, Humberto Teixeira, em geral ofuscado pelo brilho do seu parceiro habitual, Luiz Gonzaga. Fala de uma filha, Denise Dummont, que precisava acertar-se com a figura paterna. E, por fim, repõe um gênero musical, o baião, em sua justa posição no contexto da música brasileira. Assim, é cinebiografia, filme psicológico e de investigação conceitual. Mais do que tudo, é bem-feito, cheio de ritmo e emocionante. Já a seleção ibero-americana ficou abaixo do que se poderia esperar. O cubano Os Deuses Quebrados é muito fraco. Havia uma boa alternativa disponível, O Corno da Abundância, de Juan Carlos Tabío, mas a curadoria houve por bem (ou por mal) escolher o primeiro. O argentino Homo Viator resgata o personagem do escritor Haroldo Conti, "desaparecido" pela ditadura, é sofisticado, ainda que um pouco duro de cintura. Sua vantagem é colocar o personagem de maneira viva, fugindo à tendência necrofílica portenha, como disse o próprio diretor. O mexicano Coração do Tempo tem a originalidade de ser a primeira ficção filmada em região zapatista. Mas é ingênuo. O peruano O Prêmio é singelo. E pouco mais que isso. A seleção de curtas foi regular e o júri premiou o que havia de melhor: a pungência e o rigor de Os Sapatos de Aristeu, sobre o enterro de uma travesti; A Mulher Biônica, num belo desempenho da atriz Ceronha Pontes como a super-mulher que sente falta de "algo" em sua vida. E o mais inventivo de todos, Superbarroco, mistura de delírio e realidade na mente de um obcecado por Dalva de Oliveira. As atividades paralelas do festival foram bem interessantes, para dizer o mínimo. O núcleo de animação da Casa Amarela foi reativado com mostra de filmes e seminário internacional, com as presenças de dois cobras na área, Abi Feijó, de Portugal, e Juan Padrón, de Cuba, além de dezenas de animadores brasileiros. O cinema de animação vive grande momento e o Cine Ceará mostrou-se sensível a isso. SUCESSO DE CHE - Mas o filé mignon foi a mostra Che: Olhares no Tempo, com 12 produções sobre Che Guevara, de filmes conhecidos como O Argentino, de Steven Soderbergh, e Diários de Motocicleta, de Walter Salles, a raridades, como Mi Hijo el Che, de Fernando Birri, Hasta la Vitoria Siempre, de Santiago Álvares, e Investigação sobre um Mito, do italiano Roberto Sávio, As sessões estiveram lotadas por público jovem e houve acalorado debate entre realizadores presentes, mostrando que o mito continua vivo e divide opiniões, de forma apaixonada. O grande destaque da mostra foi Investigação sobre um Mito, espetacular reportagem realizada por Roberto Savio, para a RAI, no início dos anos 1970. Savio viaja pelos lugares por onde andou o Che e entrevista personagens-chave de sua história: do então secretário do Partido Comunista Boliviano Marío Monje, acusado de haver abandonado o guerrilheiro à sua sorte, ao homem que o executou, Mário Terán. Passando por um ex-chefe de sua guarda pessoal que, exilado em Miami, declara que comunista bom é comunista morto. O filme é muito esclarecedor. Suas três partes têm 3h30 de duração e foram apresentadas pela primeira vez no Brasil. É um documento inestimável. Precisa ser lançado em DVD. Quem se habilita?