ILUSTRADO
Sábado, 29 de Dezembro de 2007, 11h:37
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MPB
Chicas se consolidam no cenário musical brasileiro
Era uma vez quatro meninas que tiveram seus caminhos cruzados por conta do teatro. Há 11 anos, Paula Leal escreveu uma peça de teatro e precisava de alguém para cantar as músicas do enredo. Conheceu Fernanda Gonzaga por amigos em comum, que indicou a irmã dela, Amora Pêra, para ser a intérprete. Estava quase todo o elenco formado, mas faltava alguém que tocasse violão e também tivesse uma boa voz - foi aí que Isadora Medella chegou ao conhecimento de Paula e fechou-se, enfim, o time para o musical "Fullanas" (um trocadilho do inglês full com anas, nome final de todas as personagens). Paula ganhou prêmio de direção em um festival do Rio, mas o destino levaria essas meninas para uma reunião mais musical e menos cênica. Paula, Fernanda, Amora e Isadora se juntaram e começaram a cantar despretensiosamente em rodas e notaram uma "identidade musical". Não demorou muito para que os amigos também percebessem isso. "As pessoas começaram a nos perguntar quando a gente ia fazer show e aí começamos a pensar nisso", lembra Isadora. Estava formado o grupo Chicas, um sucesso carioca. Naquela época, em 1996, Isadora, a mais velha, acabara de passar dos 20 anos. Amora, a mais nova, ainda vivia a adolescência ("tinha entre 15 e 16"). Com incentivo dos amigos, toparam fazer um show. Tiveram boa repercussão na estréia e o público foi crescendo. Mas a história teve uma interrupção. Três anos depois do começo, quando algumas gravadoras já demonstravam interesse, as Chicas decidiram parar. "A gente era muito nova ainda, eram quatro mulheres que estavam se desenvolvendo e acho que essa pausa foi importante para amadurecermos", diz Isadora. O intervalo durou quase quatro anos. Paula e Isadora foram para o teatro; as irmãs Amora e Fernanda (filhas de Gonzaguinha) fizeram trabalho de backing vocals. Foi a saudade que causou a vontade de retomar o conjunto. Isso foi entre 2003 e 2004. Fizeram pequenas apresentações e lançaram o show "Alô, Liberdade". Já em 2005 resolveram registrar o disco "Quem Vai Comprar Nosso Barulho?". Foi gravado totalmente independente. "Raspamos nossas poupanças e fomos ao estúdio", afirma Isadora. No ano passado, as Chicas receberam Prêmio TIM como melhor grupo de MPB, participaram este ano do programa "Som Brasil" em homenagem a Caetano Veloso, da TV Globo, e emplacaram uma canção ("Geraldinos e Arquibaldos", de Gonzaguinha) na novela "Duas Caras". E, recentemente, aquele disco gravado em 2005 ganhou distribuição da Som Livre. Até então, as meninas vendiam o CD após os shows. Agora, o lance ficou mais profissional e Isadora, Paula, Amora e Fernanda dão seus passos por esse Brasil afora. O disco traz de tudo um pouco - funk, MPB, samba, baião. É uma explosão de versatilidade, mas tem coerência e unidade. O acertado repertório traz canções já bastante conhecidas do grande público - como "Me Deixa" (O Rappa), "Paciência" (Lenine) "Espumas ao Vento" (Accioly Neto), "Volte para o seu Lar" (Arnaldo Antunes). Tem alguns achados nem tão conhecidos: "Alô, Liberdade" (Chico Buarque), "Geraldinos e Arquibaldos" e "Namorar" (ambas de Gonzaguinha), além do animado "Rap do Silva" (MC Cidinho e MC Doca). E outras cinco composições de autorias das Chicas. Esta espécie de Quarteto em Cy contemporâneo tem potencial para se consolidar no cenário musical brasileiro. E pode-se dizer que está nos versos da canção que abre o CD ("Felicidade", de Gonzaguinha) a melhor definição para o conceito que estas quatro meninas carregam: "Quando a gente canta somente aquilo que a gente sente, profundamente, não há lugar nenhum para canção doente, porque a alegria se derrama quente / Pois quando a gente canta alegria, a força da canção explode".