NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sábado, 20 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sexta-feira, 25 de Julho de 2014, 20h:31

LITERATURA

Cevada, fermento e malte (primeira parte)

Rafaella Elika Borges
Especial para o DC Ilustrado
Estava na proa, fumando e observando os portos de Portugal, grafando meu diário de bordo que era entre as folhas empoeirado pelas cinzas do fumo. Aquele dia, nada de mais havia acontecido. Um grumete tinha sido encontrado morto de maleita na cozinha, o polaco responsável pela embarcação perdera mais um dedo apostado em cartas e eu mais uma vez dormira com uma porção de mulheres a cada parada. Eu era um pirata, não desses de histórias para dormir, que saem em busca de tesouros e aventuras estupidamente intrigantes, eu simplesmente navego de porto em porto à procura de mulheres, bebidas e um jogo fácil para ganhar trocados extras. Querendo ou não, ainda existem cretinos de mão ruim nos portos desse mundo. Já estava cansando de Portugal, quando o capitão mandou soltar as velas daquela grande banheira, gritei os marmanjos do outro lado do cais, saíram cambaleando e espalhando o fedor de rum pelo arredor do porto, recolhemos a velha âncora e marulhamos as águas até o norte para contemplar os melhores bares da Espanha. Lá, eu sem dúvida experimentei das melhores mulheres, seios fartos, boca longa, curvas e olhos espantosamente marcantes, mulheres espanholas, quentes e apaixonantes, intensas. Foi na Espanha que eu, um pirata velho e sem coração, vivi uma paixão. Chegamos ao porto, fui à proa, como de costume, escrever sobre a viagem que tivemos. Aquele dia choveu muito, e a ventania foi tão forte que levara a bandeira da ponta do mastro, chegamos bem e com a dispensa seca de rum, os mais babões desceram primeiro em busca de algo para beber e os fornicadores viraram a esquina em busca de um bordel empapuçado de pernas lisas. A Espanha era a mesma para mim, não havia nada de mais lá. A não ser pela melhor mistura de cevada, fermento e malte do continente, feita igualmente pelas melhores mãos. Morenas, macias, delicadas, inesquecíveis, fortes, imponentes... Se pudesse falaria só das mãos, mas ela tinha muito mais para me oferecer. Cabelos negros e bagunçados, longos. Olhos escuros como um abismo e marcantes, muito marcantes, o nariz mais lindo que já vi, e os lábios... longos e doces, açucarados, caramelizados, rosados e viperinos. Ela era um largo caminho torto, cheio de pedregulhos e depressões, um lindo caminho torto. Não era prostituta, e sim a garçonete e sócia do gordo dono do bar no porto, era o único bar a fazer a própria cerveja, deliciosa, igual à fria garoa da Espanha. Me apaixonei pela moça sem ao menos tocá-la. Em meu súbito de atração, perguntei aos tripulantes se alguém sabia o nome dela ou qualquer outra coisa. Me disseram que ela era exatamente como eu, nunca havia se apaixonado e talvez nunca se apaixonasse, já havia tido pouco menos de mil homens pela vida toda e por nenhum se interessou. Confesso que aquele dia grafei no diário que havia me apaixonado por alguém sem ao menos tê-la tocado. Na manhã seguinte, levantei-me e sentei no cais para contemplar o quebrar das ondas nos pedaços de madeira que sustentavam o compensado onde eu estava, enquanto observava o mar, encontrei minha distração do outro lado do cais, agachada com um lindo vestido de algodão encardido e um corselete marrom sustentando seus fartos seios cor de areia, naquele momento suas mãos miúdas tentavam dar um nó que sustentasse um pequeno barco estacionado no porto, suas sobrancelhas estavam franzidas e concentradas na corda que só embolava cada vez mais. (Continua...) *Rafaella Elika Borges é estudante de gastronomia e escreve semanalmente no DC Ilustrado.

Edição EDIÇÃO 16967




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL