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Cuiabá MT, Terça-feira, 23 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 05 de Fevereiro de 2011, 15h:03

M A.S

Canções ambiguamente encorajadoras

Roberto Nascimento
Agência Estado
Desde os tempos do videoclipe "Maria", em que uma modelete deitada se contorce lascivamente por Ricky Martin, mas o cantor prefere seduzi-la à distância, com sorrisos e close-ups laterais (a la comercial da Gillette), já havia quem dissesse que a pose de galã do ex-Menudo era fachada. Não deu outra. Em março de 2010, dez anos e 60 milhões de discos vendidos depois, com filhos para criar e um livro de memórias em fase de gestação, o cantor postou em seu site: "Hoje aceito minha homossexualidade como um presente que a vida me dá. Me sinto abençoado de ser quem sou". Imagina-se que a repercussão causou paradas cardíacas nos andares de cima da indústria fonográfica americana, pois o latin lover mais rentável do mercado abdicava de seu sex appeal em uma só tacada. Mas Ricky queria arrefecer a consciência: fez as pazes consigo mesmo, lançou a autobiografia e voltou agora, menos de um ano depois, com o disco "Música, Sexo, Vida", ou "M A.S"., o grande teste para sua rentabilidade pós armário. Não é, como seria razoável se esperar, pela transparência com que o cantor tem falado sobre sua homossexualidade, um manifesto contra o preconceito ou uma celebração da diversidade sexual do ser humano. Em outras palavras, Ricky não quer deixar de ser pop para ser gay, não quer trocar sua Maria por um Mario ou um Alejandro. Quando não falam de amor por um "você" aberto a interpretações, as canções são calculadas para serem ambiguamente encorajadoras: "Não fuja do que você sente. Siga o seu destino fora do caminho" instiga Ricky sobre o bate estaca de praxe na faixa-título, o que pode ser interpretado como um alô tanto a quem ainda não assumiu a própria sexualidade quanto a quem é de uma família de médicos mas resolveu vender acarajé na Bahia como profissão. Mesmo quando Ricky fala de um menino com uma "semente escondida ao nascer" tem cuidado de cantar a mesma frase para uma moça no final da música. Esse melindre excessivo pasteuriza "M.A.S". Entre os poucos destaques há o hiperglicêmico single "The Best Thing About Me is You" com Joss Stone e "M.A.S". Mas só quando baixa o santo e Ricky canta à nação gay com um megafone (em "Será Será"), é que há lampejos de uma individualidade que, tratando-se de um homem gay, seria interessante assistir no palco pop ultra comercial.

Edição EDIÇÃO 16967




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