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Sábado, 04 de Dezembro de 2010, 13h:13

RECORDAÇÕES

"Cabeça Dinossauro", a pegada dos Titãs

O segundo, e talvez o melhor, disco da banda é o próximo título e boa novidade que chega neste domingo às bancas na coleção Grande Discoteca Brasileira do Estadão

Lauro Lisboa Garcia
Agência Estado
Hoje eles são um quarteto, mas no princípio os Titãs eram muitos e vários. Seus integrantes participavam de bandas paralelas, ouviam e tocavam de tudo, até que se definiram como Titãs do Iê Iê. Ainda com André Jung na bateria (depois substituído por Charles Gavin), viraram só Titãs porque o adendo se mostrou inútil, já que quase todo mundo os chamava de Titãs do Iê-Iê-Iê e a ideia não era essa. Se bem que no primeiro álbum, Titãs (1984), emplacaram uma canção digna da ingenuidade da turma da jovem guarda: "Sonífera Ilha". No segundo já começavam a botar as asas de fora e desciam a linha no efeito imbecilizante do veículo que dava título ao disco: "Televisão" (1985). Porém, só foi em "Cabeça Dinossauro" - próximo título da coleção Grande Discoteca Brasileira Estadão, nas bancas domingo -, que a banda conseguiu mostrar as garras pra valer. Até então, suas gravações soavam chochas e não correspondiam à garra do grupo ao vivo. "Cabeça Dinossauro" (1986) foi o primeiro de uma série de três grandes discos de estúdio da banda, seguidos por "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas" (1987) e "Õ Blésq Blom" (1989) e provocou um estrondo, distribuindo porrada pra todo lado, incluindo os "caras que não fazem nada" e as principais instituições: a Igreja, o Estado, a família, a polícia. O motivo de tanta agressividade tinha origem real. Tony Bellotto e Arnaldo Antunes foram presos no fim de 1985 por porte e tráfico (caso de Arnaldo, que ficou um mês detido) de heroína. Houve quem criticasse os Titãs (e indiretamente a produção de Liminha e Pena Schmidt), apontando o tom raivoso do disco como coisa de "punk de butique", mas o poderoso material sonoro da banda falou por si só e as vendas do disco cresceram e consequentemente o público do show impactante, que marcou época. "Foi o primeiro disco em que ficamos satisfeitos com a sonoridade. Nos dois primeiros, a gente soava mais leve do que fazia ao vivo. Com a produção de Liminha, conseguimos finalmente equiparar essa defasagem que havia", lembra Arnaldo Antunes, que saiu da banda em 1992. Resposta à hipocrisia Arnaldo Antunes diz que a banda até então não tinha conseguido soar grande como queria, talvez por imaturidade deles ou da captação dos produtores com quem tinham trabalhado. "Isso é uma coisa. Teve também o episódio da prisão, o disco todo tem uma certa violência, que responde àquela situação de vida, em faixas como 'Estado Violência', 'Polícia'. E também o contexto conceitual, por cada faixa falar de uma instituição. É um disco muito amarrado conceitualmente e muito condensado sonoramente. Enfim, tem uma série de elementos. Foi um momento muito especial pra gente", diz o compositor e cantor "Polícia para quem precisa de polícia" tornou-se um dos versos mais populares da banda entre roqueiros e prováveis agredidos em geral. "Igreja" foi uma resposta de Nando Reis às declarações de Roberto Carlos em favor da proibição do filme "Je Vous Salue Marie", de Godard. Arnaldo Antunes não concordava com a letra e saía de cena quando chegava a hora dessa canção no show. Mas fazia isso também em outras - os Titãs tinham seis vocalistas que se alternavam. "O que realmente me incomodava era essa coisa de ter qualquer certeza. Nunca tive uma certeza religiosa e também não tenho do ateísmo. Tinha outras músicas em que eu não fazia coro, não estava presente. Esse episódio com 'Igreja' era irrelevante, mas acabou sendo tão comentado que com o tempo passei a ficar no palco e cantar a música, porque também não era para virar uma bandeira", lembra Arnaldo. Censura - A ditadura militar ainda dava suas últimas tesouradas, mas os Titãs não sofreram o mesmo golpe desferido contra a Blitz, que teve duas faixas do primeiro disco totalmente riscadas no vinil, como forma radical de impedir que fossem tocadas. Mesmo assim, tiveram a canção "Bichos Escrotos" proibida de ser veiculada nas rádios, especialmente por causa de um verso, esse também vetado para ser cantado nos shows. "Com o tempo algumas rádios passaram a tocar, fazendo um ruído na hora do ‘vão se foder’. O problema era o palavrão", diz Arnaldo. "No show, a gente não podia cantar essa parte, mas o público gritava.Era genial."

Edição EDIÇÃO 16967




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