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Sábado, 15 de Agosto de 2009, 12h:58

LIVROS

Biografia vai além da 'casca' de Wilson Simonal

"Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal" (Editora Globo) e "Simonal - Quem não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga" estão chegando ao mercado

Por Fernanda Brambilla
Agência Estado
São Paulo - "O que se conhece do Simonal é a casca, uma casca interessante, mas só." A afirmação do jornalista Ricardo Alexandre põe nova lenha na fogueira da discussão sobre a trajetória do ícone da música popular brasileira na década de 60 e é alvo de dois livros que se propõem a ir mais fundo na vida do cantor. Depois do documentário "Ninguém Sabe o Duro que Eu Dei", de Cláudio Manuel, reabrir o baú de polêmicas em torno da fama, do apogeu e do ostracismo a que Simonal foi submetido, Alexandre, de 34 anos, mergulhou na biografia do músico para revelar as histórias antes da fama, além de revolver questões não resolvidas no filme. Já o historiador Gustavo Ferreira, de 28, utiliza a história do cantor como uma janela para contextualizar o período da música popular brasileira em que Simonal viveu o seu auge. "O espectador sai do filme com uma versão totalmente errada", provoca Alexandre, que trabalha como diretor de redação da revista "Época São Paulo". Em seu "Nem Vem Que Não Tem - A Vida e o Veneno de Wilson Simonal" (Editora Globo), que deve chegar às bancas em setembro, o jornalista reuniu mais de 100 depoimentos, além de uma extensa pesquisa, para recontar cenas importantes da trajetória de Simonal. "O show do Maracanãzinho, por exemplo, é contado de maneira equivocada. Também há erros históricos, como a relação de Simonal com a Shell (empresa de que foi garoto-propaganda e que teria rompido o contrato depois de atrasos e faltas do cantor a compromissos), pivô da polêmica. Ouvi todos os departamentos da empresa até esclarecer essa parte." O relato do contador Raphael Vivani, que no documentário afirma ter sido espancado a mando de Simonal, também é contestado. "História errada. Mais, ainda não posso contar." Alexandre reconhece que o livro foi feito com o filme em perspectiva. "O documentário reconta a história a partir de depoimentos, só que alguns estão errados", diz o autor. "Muitos casos têm a participação dos envolvidos, mas eles não são verdadeiros, porque quem contou teve uma visão parcial, e não porque teria havido má-fé." Segundo o pesquisador, facilitou sua pesquisa o fato de a imprensa ter seguido cada passo de Simonal. "Isso não acontecia com outros grandes artistas, mas a carreira dele foi bem documentada." Sem querer entregar o ‘tesouro’ à reportagem, Alexandre deu mais uma dica de um capítulo revelador aos fãs de Simonal e de música brasileira: "Fãs de Roberto Carlos vão ter um redirecionamento da posição do cantor em relação ao Simonal e do envolvimento dele com a polícia política da época", camufla. A infância pobre, a relação distante com o pai e a forte influência da mãe em sua formação também estão no livro. O trabalho foi permeado pelo apoio dos dois filhos de Simonal, que hoje vivem no mesmo universo artístico, Max de Castro e Simoninha. "Muitas descobertas que eu fiz foram chocantes até para a família. Os dois apoiaram a proposta e ficamos nos falando durante um ano e meio. Às vezes, um deles lembrava de uma história, uma pessoa que valia entrevistar", conta Alexandre "interessa a eles esclarecer as dúvidas que alimentaram o ostracismo do pai." BODE EXPIATÓRIO - A ausência de referências sobre Simonal instigou o historiador carioca Gustavo Alonso, autor de "Simonal - Quem não Tem Swing Morre com a Boca Cheia de Formiga". Ainda sem data de lançamento (pela Editora Record), o livro de Alonso discute o período entre as décadas de 60 e 70 a partir da carreira e da exclusão de Simonal. "Como alguém que era tão famoso, tão popular, hoje está esquecido?", questiona Alonso. A ambiguidade nos relatos obtidos pelo autor reforçou a tese. "O que mais ouvia era: ‘Sempre foi um ótimo cantor, mas...’ Sempre havia ressalvas", destaca o autor, que defende o reconhecimento da pilantragem marcante de Simonal como um movimento artístico e complexo como a MPB. "A diferença é que a MPB foi incorporada depois por uma elite cultural, assim como Jorge Ben Jor, que veio com 'País Tropical' pela primeira vez", discursa o autor. "É engraçado ouvir o Pelé falar que ninguém fez nada para ajudar o Simonal. Ele também não fez", acusa. "Simonal serviu como bode expiatório perfeito: negro, popular, massacrado pela mídia e com aquele jeito marrento."

Edição EDIÇÃO 16960




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