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Cuiabá MT, Sábado, 20 de Junho de 2026

ILUSTRADO
Sábado, 03 de Dezembro de 2011, 10h:36

CRÔNICA

Bem vindo o tempo para outros tempos

Um dos valores da Exposição reside em seu poder culturalmente estimulante, descortinando imagens, concepções e comportamentos...

Lucinda Persona*
Especial para o Diário de Cuiabá
Temos muito para ver, rever e sentir em dias como estes, perto do Natal, quando a realidade acolhe os brilhos da época, os corações se expandem de um modo diferente, a paisagem é tingida de emoções e certos pontos de convergência têm um rumor especial, um ruído de brinde, aglutinando pessoas como um cristal de açúcar aglutina formigas. Congregar pessoas e vê-las transcender é um dos resultados mais salutares para empreendimentos de socialização do conhecimento. Merece menção honrosa um dos pontos de convergência da temporada, a Exposição Tempo de Almanaque, no SESC Arsenal, aberta no dia 16 de novembro e seguindo por um mês, como um espaço de informação e comemoração histórico-cultural. É uma produção das mais significativas, sintetizada no Catálogo Tempo de Almanaque. – Rio de Janeiro: SESC, Departamento Nacional, 2011. 72 p. A engenhosidade já se nota no layout do título quando a palavra Alma vem separada do restante, sugerindo ser também um tempo para esse universo de estranhas forças e sentimentos que é a alma. Numa fina concepção e realização do SESC Nacional, a Exposição de Almanaques viabilizou-se a partir do acervo de Yasmin Nadaf, colecionadora de vários títulos, pesquisadora de escola, escritora, mestre e doutora em Literaturas de Língua Portuguesa, além de ser grande leitora desde muito cedo. Oportuno observar seu espírito sempre em conexões essenciais com o passado, o presente e o futuro. Um dos valores da Exposição reside em seu poder culturalmente estimulante, descortinando imagens, concepções e comportamentos de um determinado período brasileiro, quando alguns aspectos tecnológicos não se faziam presentes, quando era difícil a publicação e circulação da palavra escrita, se comparada a hoje com essa incrível proliferação de impressos. Colocar almanaques (que marcaram gerações de leitores nos séculos XIX e XX) ao alcance de mãos e olhos do terceiro milênio significa instruir na contemplação do passado e na verificação de um processo evolutivo. A Exposição, estruturada em painéis exibindo capas e páginas de almanaques, bem como reproduções na íntegra, não deixa ninguém indiferente. Ali, entre molduras de ferro com belo design, são tecidas redes de emoções ligando as pessoas entre si e também à realidade cultural do passado. Cada um, ao se aproximar, retroage na linha do tempo, faz uma expedição de memória, resgatando aspectos da época, valores e estilos de vida. Não há visitante que não se deixe levar por uma carta enigmática (como o fez a nossa presidente da Academia Mato-grossense de Letras) ou pelas adivinhas e tantos outros passatempos. Particularmente, entrei em sintonia com a criança remota dentro de mim, articulada com os mais diversos instrumentos de leitura. O tempo vem e vai. No seu bojo surgem ações especialmente boas, contribuições de ampla abrangência e efeito enriquecedor na sociedade, eventos que irradiam positivamente, ativam a imaginação e levam à reflexão do que fomos e somos. Assim é Tempo de Almanaque, mobilizando para a informação, para o cultivo da história e para o prazer do intelecto. Nesse plano (dentro da poética da reminiscência), quem nos ilumina e ajuda a potencializar a visão do evento é nossa estrela de primeira grandeza, Manoel de Barros, em “As lições de R.Q.” quando diz: “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê./ É preciso transver o mundo”. Conselho que acatamos como um modelo de felicidade. *Lucinda Persona é poeta, bióloga e professora (Universidade de Cuiabá). Autora de “Tempo comum” (7Letras, 2009), entre outros.

Edição EDIÇÃO 16967




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