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ILUSTRADO
Sábado, 05 de Abril de 2008, 13h:55

RESENHA

Bartok & Missa Armorial em Concerto

A última apresentação da Orquestra de MT apresentou agradável surpresa

Ney Arruda*
Especial para o Diário de Cuiabá
Certa vez na época do mestrado em ‘Floripa’ cometi uma espécie de “exagero absurdizante”. Fui ao CIC – Centro Integrado de Cultura e assisti ao concerto da Orquestra de Câmara de Viena de sexta a domingo. Nenhuma novidade: o repertório estava pronto e acabado. Sua solidez interpretativa era inquebrantável. Em nossa Capital aprecio assistir, por vezes, a última apresentação. Óbvio que esta traz sempre o progresso da ‘exegese musical’ do grupo. Contrariando meus planos, desta vez, assisti ao primeiro dos três concertos da “Orquestra do Estado de Mato Grosso”. Ué?! Até dezembro do ano passado era ‘Orquestra de Câmara’. Estaria a mesma num surpreendente processo de transição para se transformar numa Orquestra Sinfônica de MT? Ao certo, recebemos com carinho o Programa Integral da Temporada 2008, e lá estava a novidade. Já em seu segundo concerto do ano, pudemos apreciar a orquestra executar as ‘Romanian Dances’ do compositor Bela Bartók. Isto é, uma mini-suíte dotada de seis micro movimentos de 08 minutos ao todo. A afinação, de fato convincente, apenas obteve um entrave para ser perfeita. É aquela velha dificuldade do ‘conversê’, que chegou há suaves 14 minutos. Sabe aquelas histórias de alguém querer contar ao microfone no palco tudo que o público já leu e está no programa? Pois é, nisso a orquestra que logo afinou, aqueceu os dedos com escalas, arpejos e as passagens mais perigosas da obra – literalmente - dançou. Porque os músicos acabaram tocando ‘frios’. O herói em uma noite de concerto, geralmente é o maestro. No caso do regente convidado, este falou tanto entre uma peça e outra, talvez para disfarçar seu nervosismo. Lambança fez com sua batuta, até derrubá-la no chão. Aí não teve jeito. Brilhou mesmo foi a figura do spalla Luciano Pontes. Esse goiano formado na Escola de Música da UFG – Universidade Federal de Goiás deu provas de sua competência. Apesar de poucos ensaios da orquestra. Nas Danças Romenas, o sucessor do escocês Mark Wilson, exibiu seu caráter de virtuose. A eloqüência de sua interpretação corrobora com tantos prêmios amealhados em sua carreira como o de ‘Destaque Cultural do Ano’ em GO. Além do cobiçado ‘Prêmio Paulo Bosísio’ no RJ. Depois de Bartók, a platéia meio zonza de tanto blá, blá, blá pode ouvir arranjos em forma de fantasia para “Asa Branca” de Luiz Gonzaga. O compositor era Liduino Pitombeira (Russas, Ceará – 1962). Seus dados biográficos não vieram no Programa de Concerto. Mas, esse nordestino fez carreira de professor de composição na Universidade de Louisiana (EUA). Tem obras gravadas pelo Quinteto de Sopros da Filarmônica de Berlim. E já recebeu o primeiro prêmio no Concurso Nacional “Sinfonia dos 500 Anos”. Na fantasia de Pitombeira foi a aparição única das violas de cocho. A orquestração bonita lembrava trilha sonora de especial da TV Globo enfocando a cultura do Nordeste. A “Missa de Alcaçuz” veio com a inovação energizante do Coral Cantorum cuja direção é do maestro André Vilani. Ele que vem prestando relevantes serviços culturais ao Estado de MT na formação de cantores. Chegou arrasando com seu grupo e avisa que o Cantorum se encontra aberto para ser integrado por novos músicos cansados de velhos e surrados repertórios. Quanto à missa, é a estrutura clássica para o ritual religioso católico. Só que aqui temperado com baião, repente, algo até do xaxado. A música armorial já não é novidade entre nós. Estamos acostumados a ouvi-la em seu ilustre intento de dar um toque erudito ao cancioneiro popular nordestino. Já estamos apresentados. Todos os entusiastas da música ficaram felizes com a notícia dada no ‘Programa de Concerto’ acerca da outorgada qualificação governamental de “Organização Social” para a Orquestra (ex-câmara) do Estado de Mato Grosso. Contudo, é de se perguntar se a Orquestra Sinfônica da UFMT, a Banda da Polícia Militar do Estado, a Orquestra de Câmara do Depto. de Artes, a Banda do Exército, a Orquestra de Flautas do Jardim Vitória, a Big Band do Estado, entre outros. Também não teriam interesse em concorrer para apoderar-se dessa importante distinção governamental. Talvez fosse o caso de que o ‘contrato de gestão’ fosse precedido por uma consulta mais republicana aos organismos musicais do Estado de MT. Onde todos pudessem se manifestar buscando o consenso. E, sobretudo, que houvesse o esperado ‘Concurso Público’ para efetivação de cargos e carreiras aos profissionais da música. O debate está aberto! Com a palavra: as instituições culturais legitimamente mato-grossenses! * Ney Arruda é professor, doutorando pela Universidad de Burgos (Espanha), violinista cuiabano e colabora com o DC Ilustrado ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16967




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