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Sábado, 20 de Setembro de 2008, 10h:21

TV

Alice inspira série sobre a cidade grande

O cineasta de “Madame Sat㔠e “O Céu de Suely” está às voltas com uma minissérie que começou ontem e está em cartaz numa TV por assinatura

Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Lewis Carroll foi uma referência, com certeza. Quando o assunto é "Alice", é muito difícil fugir à influência do clérigo que narrou a história daquela garota numa viagem rumo ao conhecimento, atravessando os países das maravilhas e dos espelhos. Karim Aïnouz diz que não se baseou especificamente em Carroll, mas que ele estava lá, de fundo. Seria difícil para o co-diretor-geral da minissérie que começa amanhã no HBO negar a evidência, porque o primeiro episódio se chama justamente "Pela Toca do Coelho". É por aí que a Alice da TV paga entra no universo da cidade grande e São Paulo é co-protagonista da história que a minissérie conta, sobre esta garota de Palmas, no interior de Goiás, que abandona uma vida estável mas sem muitos horizontes para desembarcar na metrópole e enterrar o pai, que se suicidou. Alice, interpretada por Andréia Horta, deixa lá um noivo, que termina por abandonar, e ingressa num estilo de vida que a leva de descoberta em descoberta. No primeiro episódio, que o próprio Karim dirige, ela é empurrada - pela vida, pela cidade. Um engarrafamento de trânsito, coisa mais paulistana, a leva a perder o vôo de volta para casa e aí vem uma festa, um estranho com quem Alice vai para cama e sua vida nunca mais será a mesma. "Nada mais paulistano do que não ser paulistano", diz Karim, que nasceu em Fortaleza, viveu muito tempo no Rio e há dois anos mora em São Paulo, por conta justamente do seu envolvimento no projeto que agora se concretiza para o público. Embora goste de praia, céu, mar, essas coisas que fazem o charme do Rio, ele não consegue mais se ver de volta à cidade que é chamada de ‘maravilhosa’. Karim lançou âncora em São Paulo e a minissérie é um pouco seu canto de amor por essa cidade frenética, às vezes cruel, quase sempre neurotizante, mas que também é cosmopolita e oferece atrativos de sobra para fisgar quem por aqui aporta, seja o criador de "Alice" ou a própria garota da história. O namoro de Karim com a HBO começou há dois anos e, na verdade, é um triângulo, pois inclui o co-diretor-geral Sérgio Machado, que também assina alguns episódios. Machado é outro ‘estrangeiro’ em São Paulo, um baiano (de Salvador) que mora no Rio. Mas quem conversa com a reportagem é Karim Aïnouz, autor de dois filmes tão fortes quanto diversos, "Madame Satã" e "O Céu de Suely". Ele foi chamado quando já existia um projeto, sobre uma garota que trabalhava numa seguradora e cada episódio era menos a sua história do que as daqueles com quem ela se envolvia, até por exigências do trabalho. A personagem não dava liga com o diretor e ele propôs outra coisa - a história da interiorana que descobre São Paulo e realiza seu rito de passagem. Seria uma facilidade fazer de Alice uma prostituta, que ela não é, embora o telespectador talvez experimente a tentação de julgá-la moralmente no primeiro episódio, quando a protagonista, até de forma inconseqüente, sai de um enterro para uma festa e troca o noivo, na boca do altar, por esse estranho com quem passa somente uma noite. Para evitar o julgamento e até a natureza expositiva do primeiro episódio, que apresenta personagens e situações e em geral não leva a lugar nenhum, só abrindo caminhos, Karim, se pudesse, começaria logo mostrando amanhã o segundo ou o terceiro episódios, que são muito melhores e já vão revelando uma outra Alice em processo de mutação. No segundo, ela busca a meia-irmã que saiu de casa e se perdeu na cidade, fugindo à mãe - à madrasta de Alice. Inicialmente, a personagem interpretada por Carla Ribas, de "A Casa de Alice e Gertrude" na montagem de "Hamlet" com Wagner Moura, parece uma megera, mas já no segundo episódio as coisas vão se revelando como são, não como parecem, e ela também muda. Por isso mesmo, é apressado avaliar criticamente "Alice" a partir do primeiro episódio. É preciso um pouco mais de tempo e Karim até reflete. "Filmamos, em super-16 mm, na ordem cronológica, mas acho que teria sido melhor se tivesse começado pelo segundo e pelo terceiro episódios - NR: o segundo, ‘O Tesouro de Alice’, também é dirigido por Karim Aïnouz; o terceiro, ‘O Retorno de Elvira Ciprianni’, com Teresa Rachel como uma prima donna que volta a São Paulo, por Márcia Faria -, para só depois fazer o primeiro. Acho que todos estaríamos mais integrados, teríamos mais pique. O primeiro episódio não me satisfaz. Tem barrigas, a Andréia ainda está muito crua, como mulher e atriz. Ao longo da minissérie, ela vai sofrer uma mudança muito forte, não apenas emocional, mas física, e lá pelo quinto, sexto episódios fica muito mais bonita. Mas não adianta. Não há como fugir à síndrome do primeiro episódio. É preciso começar apresentando essas pessoas." "Alice" é a primeira minissérie brasileira da HBO que possui uma primeira temporada completa, de 13 episódios. As precedentes, "Mandrake" e "Os Filhos do Carnaval", estrearam com meia temporada e só agora estão sendo completadas. "Alice" começa integral e, no último episódio, a garota, virada mulher, já estará pronta para novas aventuras e emoções - mas é prematuro dizer se haverá segunda temporada. A garota que deixa o interior para se perder e encontrar na cidade grande refaz, em sentido inverso, a trajetória de Hermila Guedes em "O Céu de Suely" e o personagem do noivo remete ao João Miguel que nunca deixou de esperar por Hermila/Suely na pequena cidade do Nordeste. Karim queria oferecer um papel a Hermila, mas ela agora é contratada da Globo e a emissora não liberou. Ele é um caso curioso de diretor que não gosta de escrever. Karim é muito bom para avaliar roteiros, mas quem escreve é o parceiro Sérgio Machado, que dirigiu o belo "Cidade Baixa", com Alice Braga. Ambos são homens de cinema e fazem uma ponte interessante entre cinema e TV. De fundo, São Paulo e o segundo episódio, no qual Alice vai trabalhar na Mostra de Cinema, abre-se com uma homenagem ao clássico "São Paulo S.A.", de Luiz Sérgio Person. Como Alice, a cidade também se agita e transforma, e a idéia de Karim e Sérgio Machado é traçar um arco urbano que começando lá com Person, nos anos 60, chega agora à megalópole, que Sampa já é.

Edição EDIÇÃO 16967




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