ILUSTRADO
Sábado, 14 de Setembro de 2013, 13h:07
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A CIDADE VIVE DOS QUE VIVEM E VIVERAM NELA
Adélia Maiolino Matos: Representante dos troncos familiares Gardés e Maiolino
Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
Adélia Maiolino Matos descende de duas famílias tradicionais de Cuiabá: do lado de pai (Maiolino) e do lado de mãe (Gardés). Nascida em 10 de julho de 1930, Adélia é filha de Saturnino Nicola Maiolino e de D. Veleda Gardés Maiolino e se casou com o consagrado contador Dr. Domingos de Matos, vulgo Mingote, em 18 de fevereiro de 1950. Assistente Social e Professora diplomada pela Escola Normal Pedro Celestino, mãe de cinco filhos, Adélia está na fase da colheita dos frutos que plantou: lúcida, com ligeira hipertensão e diabetes, controladas pelos medicamentos, ela acompanha os filhos e netos e gosta muito de leitura e de escrever e só não viaja com maior frequência porque tem medo de avião. Fomos falar com ela e tivemos a colaboração do seu filho Alex de Matos, um escritor fantástico e arquiteto muito requisitado. Eis a matéria. DC ILUSTRADO: Conte-nos de sua vida escolar. D. ADÉLIA: Fiz o antigo curso primário na Escola Modelo Barão de Melgaço, ao tempo em que era dirigida pela professora Alina Tocantins. Depois fui para o Liceu Cuiabano, a Escola Normal e a UFMT onde me diplomei em Serviço Social DC ILUSTRADO: Professora formada a senhora não exerceu o magistério? D. ADÉLIA: Dirigi e lecionei na Escola Particular Domingos Sávio que fundei na rua Antônio Maria, nos fundos da minha casa. Suponho que a Escola Domingos Sávio tenha sido uma das primeiras escolas particulares de Cuiabá em 1960. DC ILUSTRADO: E o casamento, filhos
D. ADÉLIA: Casei-me em 18 de fevereiro de 1950 com o saudoso Domingos de Matos, conhecido pelos cuiabanos, carinhosamente, como Mingote. Ele foi o primeiro e único amor de minha vida e tivemos cinco filhos: Jorge (já falecido), Helen, Alex, Miriam Adele e Luiz Cláudio DC ILUSTRADO: E a família de seus pais? D. ADÉLIA: Eramos doze filhos e o meu pai, para homenagear a Itália e o Brasil, fez um acróstico com os nossos nomes: Ibsen Benata Túlio Rosalba Atílio Adélia Luciano Sezefredo Iva Itasil Arrigo Lair Interessante essa iniciativa dele, pois não? DC ILUSTRADO: Alguma outra novidade? D. ADÉLIA: Meu avô João Pedro Gardés, foi o primeiro diretor da Escola Industrial de Cuiabá, hoje Instituto Federal de Educação entre 29/11/1909 a 10/11/1914. Meu avô era irmão de Bertha Gardés, mãe do cantor Carlos Gardel, que era argentino de coração mas francês de nascimento. DC ILUSTRADO: A sra. se tornou escritora? D. ADÉLIA: Escrevi algumas obras como Album de Família, Sonhos Cognitivos e Coisas Estranhas e Traços Vivos do Destino A pretensão foi eternizar dados familiares e a minha passagem por este mundo. Os meus descendentes ficaram com alguma coisa iniciada para prosseguir. DC ILUSTRADO: A impressão que se tem é que a sra. está realizada D. ADÉLIA: É, pelo menos assisti o aparecimento da Ximbica e a chegada do VLT que está próxima e o Alex interveio: ALEX: Presenciar essa evolução dá-nos a impressão de termos vivido, considerando a vivência de mãe e filho, o século mais importante da humanidade (século XX). Cuiabá foi, talvez, a cidade brasileira que mais cresceu em todos os sentidos. Alguns dão uma interpretação esotérica, outros consideram que a sua posição geográfica central (o centro geodésico da América do Sul). Acreditamos numa somatória dessas duas visões já conhecidas por todos. Caso perguntassem qual a principal qualidade de Cuiabá, responderíamos que a receptividade nos representa, mas o sol cuiabano que dilui qualquer friagem que por aqui se apresenta é a grande qualidade desta cidade concêntrica e arremata: viva o calor cuiabano! DC ILUSTRADO: O Dr. Domingos de Matos, contador diplomado pela Academia de Comércio do Rio de Janeiro em 17 de janeiro de 1946, é cuiabano nascido em 07 de junho de 1921. Tornou-se profissional de renome, foi Diretor e Presidente do Instituto de Previdência do Estado de Mato Grosso e faleceu em 13 de agosto de 2006. Homem de comportamento inatacável era apreciado em suas crônicas e escreveu um livro em co-autoria com o filho Alex intitulado Cuiabano de Corpo e Alma já esgotado. Pedimos ao Alex um texto do Dr. Domingos de Matos e ele nos trouxe Cuiabá Cidade Feminina: Até os idos de 1950 esta cidade tinha fama de possuir 10 (dez) ou mais mulheres para cada homem. É verdade, como Cuiabá não possuia, ainda, curso superior (universidade) os rapazes, estudantes, ao concluirem o curso ginasial ausentavam-se, de preferência, para o Rio de Janeiro a fim de cursarem Direito, Medicina, Odontologia e outros, dando origem àquela desproporção anteriormente comentada. Ao partirem, muitos deixavam namoradas firmes aguardando ausências e durante anos de espera algumas desistiam, porém a maior parte não saiam de casa nem mesmo para irem à missa de São Benedito. Dos namorados ausentes, alguns não voltavam, outros retornavam casados. Nestes dois casos o comentário citadino era geral e decepcionantes para aquelas ingênuas namoradas que ingressavam no colégio de freiras tornando-se irmãs de caridade. Em compensação os rapazes que aqui permaneciam por falta de condições financeiras para custeio de seus estudos e os que ainda cursavam ginásio, estes de certo modo, eram favorecidos diante da quantidade do mulherio. Para se ter uma idéia, nos bailes as garotas dançavam uma com as outras devido a minoria de rapazes. Todavia, apesar de Cuiabá achar-se isolada dos grandes centros, viver nesta cidade, naquela época, na verdade era muito melhor que na Cuiabá hodierna. Entretanto, voltando ao comentário anterior de que os estudantes de outrora ausentavam-se para concluirem curso superior, conta-se que um rapaz da sociedade viajou para o Rio de Janeiro com a intenção de ser médico. Após o tempo necessário os seus pais, sem aviso prévio, seguiram para a cidade maravilhosa para assistirem à formatura do heróico filho e surpresos verificaram que o dito cujo ainda estava tentando vestibular. DC ILUSTRADO: Fale-nos sobre sua adolescência D. ADÉLIA: Olha Evaldo, acho que minha distração era passear pela cidade com o preto Mamede, meu irmão de criação e de quem eu gostava imensamente. E o Alex interveio: Minha mãe era muito bonita e quando ela passsava pelas ruas todos ficavam a admirá-la, atrás de janelas e portas. Os homens queriam apreciar a sua fulgurante beleza e as mulheres copiar os seus belos vestidos, confeccionados pela minha tia Iva que era uma famosa costureira da Cuiabá de antigamente. DC ILUSTRADO: Nesse primeiro livro Album de Família, a sra. contou com a ajuda de familiares? D. ADÉLIA: Não posso deixar de frisar que tive incentivos de quase todos os parentes, em particular da minha prima Dayse. Também recebi a colaboração da amiga Vera Randazzo, Diretora do Arquivo Público. Mas alguns familiares, que não vem ao caso nominá-los, não acreditavam que eu conseguiria elaborar ou mesmo terminar este meu primeiro trabalho. DC ILUSTRADO: Pelas denominações de seus livros nota-se que a sra. sempre foi dotada de sensitividade, não é verdade? D. ADÉLIA: Realmente, até o meu saudoso marido foi antecipado a mim. Passeando pelo jardim com amigas um sopro chegou ao meu ouvido anunciando que um, dentre os três homens sentados no banco, viria a ser meu marido. E de fato o anúncio que recebi foi concretizado. Tive ao longo de minha vida muitas premonições. Certa feita, conversando em minha casa com o saudoso professor Esequiel de Siqueira, que era um sábio, ele me disse: No aniversário de 40 anos de um filho que não estará entre nós, e aqui ainda não será seu dia de aniversário, apenas onde ele estará, o filho ainda antes de completar 45 anos, já terá cumprido a sua missão
De fato o meu filho Jorge aos 44 anos e meio partiu para o plano superior e na mesma data e horário o meu filho Alex estava em Veneza no dia em que iria completar 40 anos. Aliás, foi exatamente por isso que o Alex, meu filho que é arquiteto, passou a estudar a vida de Esequiel e escreveu a celebre obra Os Andarilhos, onde faz comparações entre Esequiel e Vigilato, um outro vidente de Poconé. DC ILUSTRADO: Como tem sido a sua trajetória como arquiteto e escritor, Dr. Alex? Dr. ALEX: Sou arquiteto pós graduado em metodologia de pesquisas. Para enriquecer o meu autoconhecimento fiz também pós graduação em psicanálise. Já publiquei os seguintes livros: O patrono azul da maçonaria de São João, A Igreja do Bom Despacho Arquitetura e Simbolismo, Cuiabano de Corpo e Alma em co-autoria com meu pai Domingos de Matos, Os Andarilhos, Os Síndicos, Templos Secretos história e arquitetura sagrada das igrejas neogóticas de Mato Grosso. Como nunca fui patrocinado, editei essas obras com recursos próprios, o que diminuiu os seus acessos ao grande público. Mas já obtive algum sucesso pois, através deles tornei-me membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Atualmente está em fase de acabamento histórico familiar que me fez pesquisar até fora do Brasil, na França, sobre os antepassados dos Gardés. DC ILUSTRADO: Pelo compulsar de suas obras constata-se que as suas pesquisas demandaram enormes esforços e algumas trazem dificuldades pelas suas cientificidades. Dr. ALEX: É que algumas vezes sou obrigado a aprofundar mais num ou noutro aspecto para esgotar o enfoque pontual. Mas com algum esforço ou boa vontade do leitor as coisas se esclarecem. DC ILUSTRADO: Alguma mágoa, tristeza, alegrias D. Adélia? D. ADÉLIA: Mágoa eu esqueço o mais rápido possível e me centralizo nas coisas boas. As tristezas são as perdas do marido e do filho e as alegrias são representadas pela família maravilhosa que eu e o Mingote construímos com todo o nosso amor. DC ILUSTRADO: Só para terminar D. Adélia: Cuiabá de hoje é melhor do que antigamente? D. ADÉLIA: Isso depende do gosto de cada pessoa. De minha parte, como não sou saudosista, prefiro o hoje. CONCLUSÃO: O Dr. Domingos de Matos foi considerado um dos mais talentosos contadores de Cuiabá. Discreto e reservado como recomendavam a sua profissão sempre foi um poço de segredos o que aumentava a sua credibilidade. Casou-se com D. Adélia Maiolino Matos e formou uma família bonita com o despontar de filhos estudiosos e brilhantes. Tive o privilégio de ser professor de sua filha Helen, hoje embaixatriz residente em Roma, na antiga Escola Técnica Federal de Mato Grosso. Antes mesmo da conclusão do segundo grau, Helen já falava e escrevia no mais perfeito inglês atestando, assim, a sua sólida formação. Conheço agora o Dr. Alex, arquiteto muito bem referenciado e que como escritor faz evidenciar a cultura cuiabana para além das nossas fronteiras. As famílias Matos, Gardés e Maiolino pelo muito que fizeram em prol de Cuiabá e de Mato Grosso enfeitam a nossa coleção de entrevistados e comprovam, incontestavelmente, que a cidade vive dos que vivem e viveram nela.