ILUSTRADO
Sábado, 21 de Março de 2009, 13h:57
A
A
AUDIOVISUAL
A trama dos olhares
Projeto de realizadora Gloria Albues gera rica troca de experiências no audiovisual envolvendo equipes de diferentes etnias
Claudio Oliveira
Da Reportagem
É provável que esta seja a primeira vez no mundo em que os índios pegam as câmeras para filmar os brancos. Não filmar no sentido de registrar uma visita branca a sua aldeia, o que já aconteceu em diversas ocasiões desde que o projeto Vídeos nas Aldeias tomou o rumo de capacitar, ou melhor, formar realizadores indígenas. O projeto Vídeo nas Aldeias tem 22 anos e a partir de 1998 vem desenvolvendo sistematicamente estas oficinas que se desdobraram nacional e internacionalmente com a participação de diversas ONGs, inclusive indígenas como a CLAPI (Conselho Latino Americano de Povos Tradicionais e Indígenas), colocando os indígenas em contato com diretores e produtores indígenas e brancos de diferentes partes do mundo. O intercâmbio gerado é de cair o queixo. Caimi (Xavante), por exemplo, já viajou o mundo com a sua arte e conheceu diversos diretores da Argentina ao Canadá e de Portugal à Alemanha. Isto parece ótimo e de fato é, mas ao conhecermos a proposta ousada da diretora Glória Albues, percebemos como o olhar estava enviesado. O projeto da Glorinha chama-se Trama do Olhar. Ganhador do 4º DocTV, o projeto coloca na perspectiva dos índios a nossa cultura e vice-versa. Acredito numa comunicação interétnica e as novas mídias estão aí para isso. Quando a gente conhece o outro, a ameaça é suspensa de parte a parte argumenta a diretora. O mais interessante talvez seja a liberdade de escolha dos próprios temas e também a liberdade para editar este material. Sim, os índios irão editar as próprias imagens o que é raro por si só. Glorinha selecionou três realizadores de etnias diferentes. Winti é Kïsêdjê, Maricá é Kuikuro, ambos provenientes de aldeias do Xingu e Caimi é Waiassé (Xavante) como dissemos acima. Winti e Caimi têm 19 anos de experiência em vídeo e Maricá, nove anos. Glorinha concebeu o projeto da seguinte maneira: São duas equipes em ação sempre, uma branca e uma indígena (cada diretor indígena opera sobre o seu objeto). As tomadas e making offs são feitos concomitantemente. Serão dois blocos compostos por visões compartilhadas e um bloco editado por eles. Caimi escolheu como tema Um olhar sobre a cidade. O ritmo na aldeia é bem diferente da cidade. Na cidade as pessoas são escravas dos ponteiros do relógio que gira a cada segundo. Na aldeia, segundo ele, é o sol quem dita o ritmo. Caimi sentiu a diferença entre diferentes pontos da cidade, no centro diz ele: as pessoas parecem competir com os carros, querem ser mais rápidas que eles. Percebeu também o movimento das crianças na periferia e de poucos seguranças nos bairros ricos. O Xavante ressaltou a sua experiência iniciada com o Vídeo nas Aldeias e expandida para todo o mundo. Caimi inclusive está indo para Nova York em breve para apresentar um documentário feito em parceria com um diretor Venezuelano (da etnia Waiyu) e uma antropóloga americana. O vídeo já foi apresentado em Montreal (Canadá) e tem como foco a água. Para ele, a tecnologia é uma aliada, uma ferramenta de defesa da cultura e dos direitos indígenas. Winti, da etnia conhecida como Suyá, mas que se autodenomina Kïsêdjê escolheu como tema a bodyarte, ou seja, o uso de tatuagens e piercings. Ele conta que o mais comum em seu povo é a pintura corporal que significa algo temporário. Winti diz que há tribos no Xingu que tatuam de maneira permanente a pele, mas isto lhes dá uma característica identitária inclusive não sendo uma regra geral entre os povos indígenas. Para o seu povo a colocação de bodoques (enfeites de lábios) e alargadores de orelha é tida como rito de passagem para a idade adulta, como um reflexo da masculinidade. Contudo, esta tradição tem sido abandonada. As mães não querem que seus filhos sofram tanto falou Winti que também atribui este comportamento ao fato de não estarem mais em guerra e não precisarem assustar o inimigo com esta demonstração de força. Winti havia pensado em documentar uma fábrica, passou para poluição (água) e enfim Bodyarte. Ele se pergunta por que tatuar de maneira definitiva o corpo? O que significa para eles carregar um sol ou uma borboleta ou mesmo monstros? Winti diz que está curioso para ver o processo da tatuagem, pois nunca viu ninguém fazer uma: Será que dói ou é gostoso? arremata. Maricá Kuikuro escolheu a música. Para ele música é: alegria, beleza e arte. Segundo Maricá, não dá para sobreviver sem música e por isso ele sempre se interessou pelo tema, desde os seus instrumentos, indígenas ou não, até as danças. Entre as situações interessantes já registradas, estão passagens da vida noturna em Cuiabá. Eu tive a idéia de documentar os vários estilos de música existentes em Cuiabá, indo da música eletrônica à viola de cocho e gravamos entrevistas também com os frequentadores de boates da capital, afirmou Maricá. Entramos nestas boates e em bares com detalhes de pinturas indígenas em nosso corpo. Também usamos adornos, para que ficasse bem claro que ali, naquela situação, estávamos claramente nos apresentando como índios, completou Kuikuro. Os três realizadores estão se revezando nas funções técnicas de direção, câmera e som. A equipe indígena ainda é formada pelas entrevistadoras Isabel Taukani e Naíne Terena, além de Darlene Taukani e Vitor Peruare, que foram consultores da produção. Com outros equipamentos, na equipe não-indígena estão a diretora do documentário, Glória Albuês, o diretor de fotografia João Carlos Bertoli, a produtora Luciana Prieto e os produtores Diego Baraldi e Felipe Albues Martins. A produtora MTO é parceira na realização. Já foram entrevistados: Clóvis Irigaray, Joel Pizzini, Dona Domingas (S. Gonçalo) e sua filha, Antônio Carlos Ferreira (Banavita) e Mário Friedlander. As gravações do documentário continuam até 20 de março. A Trama do Olhar tem previsão de lançamento local em julho. Como faz parte do Programa DocTV, o documentário será exibido em rede nacional pela TV Brasil, TV Cultura e TV Universidade da UFMT. A edição Mato Grosso do DocTV IV é uma realização da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, da Associação Brasileira de Emissoras Públicas Educativas e Culturais (Abepec), da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura), Empresa Brasil de Comunicação (TV Brasil), Universidade Federal de Mato Grosso (através da TVU), com apoio da Associação Brasileira de Documentaristas e Curta-metragistas (ABD), AMAV-ABD-MT e Secretaria de Estado de Educação (Seduc). O proponente do projeto é o Instituto Terra Brasilis.