ILUSTRADO
Segunda-feira, 01 de Junho de 2009, 20h:27
A
A
MÚSICA
A Orquestra que sabe fazer o dever de casa
Nossa reportagem acompanhou a performance da Orquestra de MT em Primavera do Leste e em Rondonópolis, mas também traz notícias de Campo Verde
Lorenzo Falcão
Da Editoria
A menininha de cinco, talvez seis anos brinca correndo pra lá e pra cá no espaço que separa o palco da platéia. A orquestra manda ver lá em cima. De repente ouvem-se os primeiros acordes do Trenzinho Caipira de Villa Lobos. É o suficiente para a menininha parar e começar a observar fixamente a orquestra. Um roqueiro das antigas de Cuiabá, defendendo o pão nosso de cada dia em Primavera do Leste, é flagrado apreciando a diferente música do russo Mussorgsky, e já se põe a imaginar um arranjo heavy metal para a composição. Vendedores de algodão doce, pipoqueiros e outros ambulantes, gente escorada na bicicleta, chuva, descontração total, caminhões que passam escoando a produção agrícola, pessoas de todas as idades e classes sociais sentadas ou em pé bastante descontraídas. São imagens e flagrantes típicos de um concerto bem popular. A orquestra vai para o interior tomar suas providências e chamar o povo. E o povo que vai à praça para ver os músicos tocando coisas de amor e outras coisas universais. E o público é formado por uma diversa galeria de tipos. É a música que mostra o seu alcance e comprova-se como a linguagem universal que emociona a todos. Bravo!!! Sair por aí levando a boa música à população mato-grossense já é praticamente uma rotina para a Orquestra do Estado de Mato Grosso, desde o ano de sua criação (2005). E entra ano, sai ano, a coisa continua. Desde quinta-feira passada os músicos estavam na estrada. Chegaram na madrugada de domingo, depois de realizar concertos nas cidades de Campo Verde (quinta-feira), Primavera do Leste (sexta) e Rondonópolis (sábado). O DC Ilustrado, a convite da Orquestra, acompanhou essa viagem, a partir de Primavera. Checar a performance profissional do grupo e a boa receptividade que lhes vem sendo dedicada em todas as cidades onde se apresenta é uma pauta que cai bem. A Orquestra que cai na estrada é um projeto arrojado e necessário para Mato Grosso, um estado com dimensões continentais. E há ainda que se considerar o fato de que ela leva a boa música universal às distantes regiões mato-grossenses onde as opções musicais não são tão variadas. Ao longo dessas três cidades, 4.000 pessoas, aproximadamente, assistiram aos concertos. E a Orquestra desfilou um repertório variado que incluía desde trechos de óperas de Giuseppe Verdi e George Bizet, até Maurice Ravel e Aaron Copland. Fechando os concertos com Johannes Brahms e a sua Dança Húngara. A música erudita, um violoncelo, uma viola e o violino não são instrumentos triviais nessas cidades, apesar de esta não ser a primeira vez da Orquestra nessas cidades. Tampouco os músicos mencionados até aqui são conhecidos. Mas isso não atrapalha os aplausos que mais, ou menos calorosos, vão surgindo após cada composição. A impressão que fica é a de que a orquestra convenceu e que o povo não aplaudiu meramente por educação, mas com gosto. Também fica uma certeza-esperança de que o gosto musical das pessoas em Mato Grosso, ainda bem, vai um pouco além de coisas como pagode, axé e sertanejo. Só é preciso oportunizar à população outras experiências musicais. E é isso que a Orquestra vem fazendo. Claro que ela é subvencionada pelo Governo do Estado. E que tem apoio de grandes empresas como a ADM. E em cada um dos municípios por onde passa as prefeituras, de uma forma ou de outra também apóiam. Mas cabe dizer que o apoio mais interessante e benfazejo é a receptividade do público em cada cidade. Afinal, é esse apoio que consagra e comprova o retorno da iniciativa. O maestro Leandro Carvalho, também diretor artístico e gestor, pacientemente, a cada música explica qual é a da orquestra. E fala sobre as músicas, os compositores e as situações as quais nos remetem ou em que foi concebida cada uma dessas peças. A educação musical, afinal de contas, faz parte desse processo dos concertos populares. Em Campo Verde, concerto que nossa reportagem perdeu (só nos unimos à Orquestra na sexta), mas do qual ficamos sabendo detalhes, talvez, o fato mais curioso deste final de semana. A chuva namorou a noite até cair de fininho e depois um pouco mais forte, complicando a situação do público e da própria Orquestra. Ficou uma incerteza se haveria ou não o concerto. E o público acabou se retirando quando a chuva engrossou. Mas a Orquestra persistiu. E o público voltou. Parecia até que alguém disse ao maestro: Pode subir e se preparar que o pessoal já vem... Eles foram só buscar guarda-chuvas.