A ladainha apesar de sacra é sem dúvida a base de referência mística da indiscutível musicalidade pantaneira. A proposta dos Jesuítas de despertar a fé nos nativos através da música pulou literalmente a cerca. Atiçado pelos ventos contaminados de liberdade e sensualidade local ocasionou tamanho veio musical. Diante da oratória sacra das ladainhas, herança do latim, do tempo das missas cantadas, é notório a verossimilhança com as tradicionais toadas da roda do Cururu. Tanto que os bons cururueiros são aqueles que conhecem profundamente a vida dos santos. Sendo que esses relatórios fazem parte da narrativa das ladainhas. Desde a homilia qual segue um ritual totalmente construtivo de total profissão de fé. O inicio é através do Sinal da Cruz. Que representa a reverência cristã. Em seguida canta-se o Pai-Nosso e a Ave-Maria. Para então fazer referência aos santos do altar e consequentemente entoar a ladainha ao santo padroeiro. O Cururueiro beija o altar cumprindo assim a reverência. Entra na roda e aguarda para fazer baixão. Com a vez concedida percorre o mesmo caminho rogando, louvando o altar até chegar ao padroeiro. Quando inicia o talento musical. Aquele humilde cururueiro começa então construir repentes dentro das toadas. Tanto que na maioria das vezes só é possível definir a segunda voz durante o pequeno refrão quando se repete quase sempre a última frase da toada. O repertório geralmente é de autoria própria. Parente ou conhecido bem chegado. Como sempre cantam em grupo e pertencem a mesma localidade. Frequentam as mesmas rodas. As toadas ficam totalmente casuais. Havendo sucessiva repetição. Em conversa com um cantador antigo ele confidenciou que os melhores cururueiros repetem quase sempre as mesmas toadas. Lembrei na hora de alguns, corpo de canto, que buscam a perfeição executando sempre as mesmas peças. Ao perguntar o motivo de tamanha fidelidade. Contou-me que quanto mais se canta uma toada, mais se encontra maneira de trabalhar a voz e a malícia na roda de Cururu. Segundo ele, toda toada tem várias maneiras de ser entoada. Pode ser cantada por vários, mas só um sabe dar a resposta que ela precisa. Aqui ficam duas boas ponderações: Primeiramente a consciência musical. O cantador, na mais completa humildade domina o saber do canto que conquista e encanta. O que leva a crer que essa contaminação veio através da ladainha. Onde a entonação e a postura vocal são exercidas a partir do conteúdo sacro. Segundo, a marca incontestável da liberdade inventiva. Tanto que em seguida a Viola de Cocho já não cabe somente na roda do Cururu. Ela vai para o terreiro com o Siriri e posteriormente o salão de baile. Em comunidades antigas e afastadas os bailes de menores proporções eram marcados pelo som das bruacas e os acordes das Violas de Cochos. As músicas eram as mesmas dos grandes salões de festas. Nesse momento já havia tanto o piano quanto o violão na região. O que separava esses mundos era o poder aquisitivo. O rádio talvez tenha chegado primeiro que o violão até essas comunidades. Porque os bailes de rádios eram frequentes até pouco tempo atrás. Tanto que virou moda em muitos lugares. Sentavam para o bate-papo tradicional e assim que tocava uma música dançante no rádio, dançavam. Ao final retomavam a conversa naturalmente. Os primeiros violões ainda tiveram que ser afinados a partir da Viola de Cocho. Os violões vieram acompanhando seus devidos tocadores. Fizeram escola disseminando o instrumento. Surgiram várias orquestras de cordas. Violão, cavaquinho e banjo. A gaita trouxe o acordeom e a partir de então começava a indústria da música na região. Grupos musicais formados por: acordeom, violão, bruaca e posteriormente pandeiro, passaram a ser requisitados e devidamente ressarcidos para animarem as festas e colocarem a galera na pista. Apesar de muitos afirmarem que houve uma migração do Siriri para o baile, os antigos não pensam assim. Para muitos qual abordei o assunto a resposta é categórica: Quem dança Siriri não dança baile. E é exatamente essa a impressão que fica: o pessoal do Siriri não migrou para o salão de baile. Simplesmente não houve continuidade porque os mais novos foram seduzidos pela modernidade. Dando total liberdade as concepções criativas plural. (Texto extraído do livro: Onças Luís Gonçalves) *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o DC Ilustrado -
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