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ILUSTRADO
Quarta-feira, 03 de Novembro de 2010, 18h:56

ARTE

A fotografia experimental de Ródtchenco

Vanguardista de primeira hora , um ano antes da Revolução Russa ele alugou uma casa vazia na rua Petrovka, em Moscou, e organizou uma exposição futurista

Antonio Gonçalves Filho
Agência Estado
Arte e política sempre foi uma dobradinha perigosa, mas, no caso do russo Aleksandr Ródtchenko (1891-1956), essa mistura teve um desdobramento explosivo. Vanguardista de primeira hora , um ano antes da Revolução Russa ele alugou uma casa vazia na rua Petrovka, em Moscou, e organizou uma exposição futurista junto a outros artistas que ficariam famosos - Maliévitch e Tatlin, entre eles -, antes de ser chamado para o serviço militar. Após a desmobilização, em 1917, de volta a Moscou, fundou o Sindicato de Artistas Pintores, virou secretário da esquerdista Federação Jovem e começou a trabalhar numa série de composições abstratas. Tudo caminhou bem até surgir Stalin e seu realismo socialista. Mesmo com a feroz censura e perseguição do ditador aos vanguardistas, Ródtchenko sobreviveu para se tornar o maior nome da fotografia experimental russa. E é com esse título que sua obra chega ao Brasil para a primeira grande retrospectiva do fotógrafo, que é aberta hoje (04) na sede do Instituto Moreira Salles no Rio de Janeiro. Os paulistanos não precisam ficar com inveja. A gigantesca mostra chega a São Paulo em fevereiro e ocupará a Pinacoteca do Estado, reunindo não só as fotos mais conhecidas de Ródtchenko como suas primeiras fotomontagens futuristas, as capas feitas para os livros do poeta e amigo Vladimir Maiakóvski (1893-1930), as colagens satíricas para revistas de arte, os projetos de cartazes para documentários de Dziga Vertov (1896-1954) e dezenas de instantâneos registrados como fotojornalista. Introdutor da estética construtivista na fotografia, Ródtchenko pesquisou métodos para aplicar os princípios estéticos do movimento a essa linguagem, sendo pioneiro na composição diagonal, que confere movimento à imagem e destaca a grandiosidade das formas - objetivo, aliás, do construtivismo, que ligava a emancipação artística às transformações sociais e arquitetônicas da metrópole na nova ordem surgida com o socialismo. Na mostra há vários exemplos desse olhar positivista que, em 1943, ficaria desiludido ao ver o regime stalinista usar a arte como ferramenta política para manipular o povo. A evolução do trabalho fotográfico de Ródtchenko pode ser notada claramente nos primeiros anos - das fotomontagens que serviam de ilustrações para livros dos anos 1920 (de Maiakóvski) ele passa à geometrização da paisagem nos anos 1930, fotografando monumentos e praças de Moscou numa angulação insólita, diagonal, que até hoje impressiona os fotógrafos pós-modernos. Ródtchenko, segundo Aleksandr Lavréntiev, "transformou a foto documental em arte". Esse papel de pioneiro do modernismo da ex-União Soviética nunca lhe foi negado, mas as formas de composição de Ródtchenko foram contestadas como originais em 1928, quando a revista Soviétskoe Foto insinuou que as fotos angulares dos pinheiros e sacadas de prédios feitas por ele deviam algo às experimentações do húngaro László Moholy-Nagy, na época fora da Bauhaus e editando uma revista de fotografia vanguardista, a International Revue. Moholy-Nagy jamais negou que sua principal influência fosse a escola construtivista russa. No fim dos anos 1920, no entanto, Ródtchenko parecia mais interessado no cinema experimental de Dziga Vertov e do alemão Walter Ruttmann (1887-1941), que dirigira em 1927 o hoje clássico Berlim, Sinfonia de uma Metrópole, um semidocumentário sem narrador sobre o cotidiano da cidade alemã, francamente influenciado pela teoria da montagem eisensteiniana e simpático às classes menos favorecidas. Dois momentos em particular devem atrair os visitantes da mostra O primeiro mostra a foto da mãe do artista em 1924, em que metade do enquadramento destaca um lenço de cabeça e outra metade um par de óculos dobrado - lavadeira, ela começou a ler em idade avançada. No mesmo ano ele registrou várias imagens do amigo Maiakóvski contra a parede de seu laboratório. São as fotos mais conhecidas do poeta e revelam uma sintonia perfeita entre os amigos, tanto pela simplicidade da composição - não há artifícios - como pelo despojamento do cenário. Como se vê, modernidade era mesmo com Ródtchenko.

Edição EDIÇÃO 16962




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