ESPORTES
Sábado, 16 de Agosto de 2008, 15h:33
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Usain Bolt brinca, leva ouro e bate recorde nos 100 metros
EDUARDO MALUF E WILSON BALDINI JR.
Da Agência Estado Pequim, China
Usain Bolt parecia ter sido empurrado por uma máquina até a linha de chegada. A assustadora vantagem sobre os concorrentes não deixou dúvidas aos cerca de 90 mil presentes no Ninho do Pássaro: o atletismo conheceu, ontem, um novo fenômeno. Com o tempo incrível de 9s69, o jamaicano confirmou a condição de homem mais rápido do mundo, quebrou o recorde mundial que já era seu (9s72) e levou o ouro nos 100 metros rasos. Os chineses ficaram em pé (sem exceção) para ver a disputa mais nobre da Olimpíada e deixaram o estádio espantados e, ao mesmo tempo, felizes. Vão poder falar que viram de perto um dos maiores nomes do esporte em todos os tempos. "Foi impossível acompanhá-lo, ele esteve intocável", declarou seu compatriota Asafa Powell, decepcionado com o quinto lugar na prova em que era um dos favoritos. O norte-americano Tyson Gay, outro forte candidato ao pódio, fez ainda pior e nem chegou à final. A prata foi para Richard Thompson, 23 anos, de Trinidad & Tobago, e o bronze ficou com Walter Dix, 22, dos Estados Unidos, dois bons e promissores atletas, mas até então sem grandes resultados internacionais. Nas tribunas do Ninho do Pássaro, treinadores e atletas se diziam certos de que Bolt ainda tirou um pouco o pé. Caso contrário, teria completado os 100 metros em menos tempo. As câmeras de televisão comprovam os comentários. O jamaicano relaxou nos metros finais, abriu os braços e bateu no peito antes de cruzar a linha, tão expressiva era sua vantagem em relação aos oponentes. "Vi que não havia ninguém perto de mim e resolvi comemorar (antes mesmo do fim da prova)", confirmou Bolt, com ar de desprezo, de superioridade. Inteiro fisicamente, seguiu correndo pela pista depois de ter cruzado a linha. Deu a volta olímpica e parou em todos os setores do estádio. Pegou a bandeira de seu país, enrolou-se nela, tirou o tênis e posou para fotos ao lado do cronômetro que exibia seus 9s69. "Vim para ser campeão, não estava preocupado com o recorde." Bolt foi soberano desde a primeira eliminatória e não sentiu em nada a pressão por ter chegado à China como recordista mundial. Para não dizer que foi perfeito, vacilou na largada e reconheceu o erro. "Preciso melhorar o arranque." Apesar dos 21 anos - o mais jovem entre os finalistas -, pareceu um veterano. Antes da prova, brincou com Powell e Michael Frater (sexto colocado), seus amigos da Jamaica, e se aqueceu como se fosse apostar corrida com algum vizinho de rua em Trelawny, cidade em que nasceu e onde vive sua família. Não deu a menor importância para o público, para o barulho dos entusiasmados chineses, para os cerca de dois mil jornalistas e para as câmeras. Sentiu-se em casa. Olivia Gramge, ministra do Esporte da Jamaica, declarou ter sido "o maior momento da história do país". Embora tenha força e tradição em competições de velocidade, a nação caribenha nunca havia produzido um campeão olímpico nos 100 metros rasos. Bolt, que já tinha se tornado popular em 31 de maio, quando quebrou o recorde, em Nova York, vai virar agora celebridade. "Ele caminha para igualar ou se tornar ainda mais querido que Bob Marley", afirmou, empolgada, a ministra.