ESPORTES
Sexta-feira, 08 de Agosto de 2008, 21h:00
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FESTA DE ABERTURA
Jogos estão abertos
A China contou cinco mil anos de história em uma cerimônia
que encantou o mundo com um impecável espetáculo de abertura
CLÁUDIA TREVISAN, ROBSON MORELLI E WILSON BALDINI JR.
Da Agência Estado Pequim, China
Se havia alguma dúvida sobre a imagem que a China do século XXI quer transmitir ao mundo, ela foi dissipada ontem com o impecável espetáculo de abertura da Olimpíada de Pequim, dedicado a exaltar a grandiosidade do antigo Império do Meio e o renascimento do país nos dias de hoje. Os últimos dois séculos de humilhação, invasão por potências estrangeiras, colonização, desagregação interna, guerra civil e revolução comunista não foram convidados para a festa concebida pelo diretor Zhang Yimou. Ao invés de Mao Tsé-tung (1893-1976), quem dominou a noite foi Confúcio (551-479 a.C.) e sua releitura contemporânea na "sociedade harmônica" proposta pelo presidente Hu Jintao. As grandes invenções do Império do Meio, o confucionismo, as dinastias gloriosas, as tradições culturais e as antigas rotas comerciais deram o tom da primeira parte do espetáculo, chamada de "Civilização Brilhante". O presente foi batizado de "Era Gloriosa" e apresentado de maneira muito mais abstrata que o passado. Não havia personagens nem fatos históricos, com exceção da Olimpíada. Luzes refletiam a modernidade, enquanto os símbolos de paz - a pomba - e harmonia com a natureza - o tai chi chuan - traduziam o discurso da "emergência pacífica da China" repetido pelos atuais líderes comunistas. O público participou do espetáculo acenando bastões de luzes vermelhas, amarelas, azuis e verdes, que formavam um pano de fundo colorido para o a cerimônia. A narrativa do espetáculo foi realizada por um imenso pergaminho chinês, que emergiu do centro do estádio depois da contagem regressiva, realizada com perfeita sincronia por 2.008 atores ao som de um antigo instrumento de percussão chinês, o "fou". Com 22 metros de largura e 147 metros de cumprimento, o pergaminho funcionava como uma tela na qual eram projetadas as imagens dos eventos históricos narrados. O primeiro foi a invenção do papel, realizada pelos chineses no início do século II e considerada uma das quatro invenções do Império do Meio - as outras são a pólvora, a impressão e a bússola. O centro do pergaminho foi ocupado por uma "folha" de papel de 20 metros de cumprimento, 11 metros de largura, 20 milímetros de espessura e peso de 800 quilos. Dançarinos vestidos de preto pintaram o papel, enquanto imagens de antigas manifestações artísticas chinesas eram projetadas no pergaminho. A invenção da impressão ganhou uma das mais originais representações da noite, com 897 atores dentro de colunas que se moviam como os tipos móveis de madeira inventados pelos chineses no século VIII, 700 anos antes de Gutenberg. Em cima década um, havia diferentes ideogramas chineses. Os atores moviam as colunas verticalmente e criavam imagens, entre as quais o ideograma "He", que significa "harmonia". Também representaram a Grande Muralha, uma das mais impressionantes construções do mundo, com 6.700 quilômetros de extensão. O isolamento que marcou os últimos séculos do Império do Meio foi outro elemento ausente do espetáculo, que destacou dois poderosos símbolos de ligação da China com o mundo exterior - a Rota da Seda e as expedições marítimas comandadas pelo navegador Zheng He (1371-1433). A primeira etapa do show foi concluída com a projeção no pergaminho gigante de pinturas realizadas em cinco dinastias chinesas: Tang (618-907), Song (960-1276), Yuan (1271-1368), Ming (1368-1644) e Qing (1644-1911). Nas laterais, surgiram gigantescas colunas vermelhas com imagens douradas de dragões, a figura mitológica identificada com o próprio povo chinês. Daí, a narrativa deu um salto para os dias atuais, com a projeção de luzes coloridas sobre os atores reunidos ao redor do pianista chinês Lang Lang, que tocava junto com a garota Li Muzi, de 5 anos. A harmonia com a natureza celebrada em várias das tradições filosóficas da China encerrou o espetáculo. Imagens de baleias eram projetadas na parte superior do estádio, enquanto os telões mostravam um texto que fazia menção a aquecimento global e defendia a reconciliação com a natureza. No fim, um enorme globo, com 18 metros de diâmetro, emergiu do centro do estádio. Ao seu redor, nove círculos, sobre os quais caminhavam 58 atores, alguns de ponta cabeça, como se estivessem atraídos pela força da gravidade. A natureza retribuiu: não caiu uma única gota de chuva nas pouco mais de quatro horas de cerimônia.