Marcelândia, 12 de agosto de 2010. São apagadas as últimas chamas do grande incêndio que destruiu parte do distrito industrial da cidade e mais de uma centena de casas de madeira, mas o fogo continuou devorando o pó de serra numa queima lenta e quase imperceptível que se arrastou ainda por alguns dias. Transcorrido um ano daquele sinistro as autoridades ainda não puniram os responsáveis, não elaboraram laudo conclusivo das causas do incêndio, não reconstruíram as casas consumidas pelas chamas e o empresariado atingido não recebeu nenhum tipo de compensação nem contou com linha especial de crédito bancário para tentar se recuperar dos prejuízos sofridos. Além da apatia do poder público sobre aquele que foi o maior incêndio urbano em Mato Grosso, o município de Marcelândia sequer conseguiu montar um grupo de brigadistas para atuação em situações semelhantes. Infelizmente o Brasil não tem respostas para catástrofes como a que atingiu Marcelândia. Quando tais fatos acontecem os moradores escutam emocionados e longos discursos dos detentores do poder em todas as suas esferas prometendo ações emergenciais e medidas capazes de reordenar as áreas atingidas. Porém, a prática mostra que as ações muito raramente vão além das palavras. Inconcebível que as dezenas de famílias vítimas do incêndio ocorrido há um ano em Marcelândia ainda não tenham recebido casas do governo. Nada justifica que tanto tempo depois o programa habitacional compartilhado da União com Mato Grosso não tenha conseguido construir 96 pequenas moradias para atender a demanda causada pelo fogo. O incêndio em Marcelândia provocou êxodo urbano para cidades em seu entorno e até para outras regiões. Também atingiu duramente a economia da indústria florestal de base local que enfrenta adversidade pelo satanizado rótulo que lhe foi imposto por ambientalistas que a enxergam enquanto atividade nociva ao meio ambiente. O êxodo tende a ser revertido com o passar do tempo, porque muitos que deixaram Marcelândia somente o fizeram por força das circunstâncias e no futuro, devem retornar à cidade. Os prejuízos financeiros serão de difícil recuperação, mas a força do empresariado o reverterá. Resta saber se o poder público terá resposta para a construção das casas onde moravam as famílias atingidas. Marcelândia não soube encontrar nas chamas o caminho para zerar seu déficit habitacional, quando já deveria tê-lo feito, pois as casas atingidas, em sua maioria, abrigavam famílias humildes que viviam de favor, sem pagamento de aluguel ocupando imóveis cedidos por empresários do setor madeireiro. Mato Grosso espera que a prefeitura de Marcelândia construa o quanto antes um conjunto habitacional para abrigar as famílias atingidas pelo incêndio. Meios para tanto há, porque mesmo com toda lentidão e omissão o governo federal liberou recursos específicos para tanto. Ainda que tardiamente o município precisa trocar o discurso pela prática. Marcelândia não soube encontrar nas chamas o caminho para zerar seu déficit habitacional