Editoriais
Quarta-feira, 02 de Julho de 2008, 20h:37
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Sacrifício necessário
É grande a revolta de parcela expressiva de cidadãos brasileiros com a lei que estabelece tolerância zero de álcool no sangue dos motoristas. Da mesma maneira como ocorreu com o cinto de segurança e como ainda ocorre em relação ao uso do telefone celular no trânsito, há enorme relutância dos condutores em alterar hábitos há muito arraigados. Os mais indignados são os motoristas que costumam consumir pequenas quantidades de bebidas e que jamais cometeram qualquer deslize em decorrência disso. Estes não se conformam com a intromissão do Estado nas suas vidas. Mas o Estado tem motivos irrefutáveis para a imposição de uma lei tão draconiana. O primeiro deles é a indesmentível estatística de acidentes de trânsito relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas. São milhares de mortos e mutilados por ano, uma conta que nunca fecha porque a cada final de semana, ou mesmo a cada dia, as tragédias se repetem. O segundo é a dificuldade de se estabelecer um limite tolerável, uma vez que os efeitos do álcool variam de indivíduo para indivíduo, reduzindo reflexos e aumentando a ousadia. Uma terceira razão, não menos significativa, é o fracasso sistemático de todas as tentativas anteriores para conter o morticínio das estradas. Então, por que não experimentar uma medida radical? Embora seja compreensível a indignação de quem está pagando pelos irresponsáveis que exageram na dose, o sacrifício coletivo não representa perda de liberdade individual. Afinal, não se trata de uma lei seca indiscriminada. Ninguém está proibido de beber no país. A nova legislação prevê punições somente para quem dirigir depois de consumir qualquer quantidade de bebida alcoólica. São punições rigorosas, que incluem prisão em flagrante do condutor, apreensão do veículo e suspensão da habilitação por um ano, além de penas menores conforme o nível de alcoolemia, mas a elas não estarão sujeitos os motoristas que não consumirem álcool nem os bebedores que não dirigirem. Há, portanto, uma maneira simples de se evitar a punição. Basta fazer a opção. Claro que, para isso, impõe-se uma transformação cultural na sociedade brasileira. Iniciativas isoladas, como as ações de ONGs que colocam motoristas voluntários à disposição de bebedores nas noites de sábado, têm que se tornar rotineiras na vida dos brasileiros. Será tão doloroso assim para grupos de amigos escalar um dos integrantes para não beber nas reuniões sociais, a fim de conduzir o veículo na volta? Quem não consegue, eventualmente, renunciar ao carro e aos riscos de cometer uma infração ou um acidente? Trata-se de um desconforto, sem dúvida. Mas trata-se, também, de uma cota individual de contribuição que todo cidadão deve dar para melhorar a vida de todos. No mínimo, em respeito às famílias enlutadas pelas perdas que o país nem mais consegue contar. A nova legislação prevê punições somente para quem dirigir depois de consumir bebida alcoólica