Editoriais
Sexta-feira, 05 de Maio de 2006, 21h:11
A
A
Rumo equivocado
Convocada às pressas para debater o impasse criado pela nacionalização e ocupação militar de empresas petrolíferas estrangeiras na Bolívia, a reunião de chefes de Estado sul-americanos em Puerto Iguazú, na Argentina, chama a atenção para uma característica comum entre os participantes. Em maior ou menor grau, tanto o presidente do Brasil quanto o da Bolívia, tanto o da Argentina quanto o da Venezuela governam de mãos dadas com o populismo. Por isso, seria importante que o encontro marcado para hoje na Tríplice Fronteira ajudasse a dissipar os temores gerados por anacronismos nacionalistas. O preocupante, no caso, é que, além de ir contra a tendência registrada entre nações desenvolvidas, a opção por esse caminho não tem garantido avanços para os povos do continente. Tampouco tem contribuído para reforçar os mercados internos e externo, o que ajudaria a unir a região. A forte ideologização nas relações entre os países sul-americanos, ao contrário do que pregam estas lideranças, tem levado a acertos baseados mais na visão de quem está no poder do que em políticas de Estado. Daí a insegurança jurídica que, agora, atinge em cheio as pretensões da Petrobras e de outras empresas petrolíferas na Bolívia de Evo Morales. De maneira geral, há um reconhecimento mais ou menos explícito entre governantes e até entre analistas diplomáticos de que o gesto boliviano pode ser entendido como uma manifestação de sua soberania. Do ponto de vista da evolução das relações entre as nações e, dentro delas, das relações entre o setor público e as empresas, o episódio da nacionalização por "decreto supremo" conduz a um ultranacionalismo fora de moda e incompatível com a economia globalizada. Contribui para atemorizar o capital, sem o qual riquezas naturais como as nacionalizadas na Bolívia deixam de ser aproveitadas em todo o seu potencial. O custo de práticas nacionalistas não afeta apenas os investidores, mas também os consumidores, que acabarão pagando mais pelo gás distribuído pela Petrobras. O maior custo, porém, ficará com a imagem de um continente que não consegue passar de si mesmo uma idéia de respeitabilidade, eficiência e modernidade. Por isso, os presidentes reunidos hoje na cidade fronteiriça deveriam se esforçar para que as questões de Estado sejam conduzidas não com o viés de aproximações ideológicas, mas como o sentido do interesse nacional permanente. Sem essa preocupação, o risco é de que a Bolívia e outros países da região rumem não para a frente, mas para o passado. O custo de práticas nacionalistas não afeta apenas os investidores, mas também os consumidores