O juiz eleitoral de Poço Fundo, no sul de Minas Gerais, resolveu fazer um teste escrito de língua portuguesa com os candidatos à prefeitura e à Câmara do município. A prova resumiu-se a um ditado elementar, composto por duas frases. Na primeira tentativa, 21 dos 60 pretendentes ao Executivo e ao Legislativo não conseguiram escrever "O ministro Gilmar Mendes soltou pela segunda vez Daniel Dantas". Na segunda, 13 não conseguiram grafar um texto ainda mais simples: "A realização de qualquer ato de propaganda partidária ou eleitoral". A conseqüência foi a impugnação da candidatura dos iletrados, uma vez que a Constituição diz que analfabeto pode votar mas não pode ser eleito. O episódio remete novamente para o desleixo dos partidos políticos na seleção dos filiados que oferecem ao escrutínio dos cidadãos. O mínimo que as agremiações deveriam fazer é uma avaliação criteriosa dos pretendentes a cargos públicos, exigindo deles, além da idoneidade moral, suficiente qualificação para o exercício eficaz de um mandato. Ninguém precisa ter formação de nível superior para administrar um município ou integrar um quadro de legisladores, mas prefeitos e vereadores precisam entender o que lêem, saber se comunicar tanto verbalmente quanto por escrito e ter condições intelectuais para decifrar os códigos gráficos da sociedade moderna. É equivocada a tese de que os parlamentos devem ser, em tudo, um recorte fiel da comunidade que representam. Governantes e legisladores precisam ter qualidades que justifiquem suas posições de liderança e representatividade. Mais uma vez é importante destacar que essas qualidades não se restringem ao nível de escolaridade, até mesmo porque há pessoas que sabem ler e escrever com desenvoltura sem ter concluído qualquer curso oficial. Mas o autodidatismo, do qual é exemplo o atual presidente da República, está longe de ser regra geral. Numa visão mais romântica, até se pode dizer que o que interessa é a integridade moral do candidato. Realmente, este deve ser o primeiro requisito para qualquer ocupante de cargo público e também para qualquer cidadão. Só que pouco adianta ter um governante honesto mas incapaz de compreender minimamente a burocracia da administração pública e as legítimas demandas da sociedade, ficando à mercê dos espertalhões que gravitam em torno do poder e de suas conhecidas armadilhas. Está corretíssimo o magistrado mineiro ao fazer uso de sua autoridade para impugnar candidatos incapazes de se comunicar por escrito na língua pátria. Ele não está discriminando pessoas que talvez não tenham recebido a devida oportunidade para se instruir. Está, isto sim, protegendo os demais cidadãos do risco de se verem representados por lideranças pouco capacitadas. O ditado dos candidatos deveria ser uma prática comum em todas as localidades, até para servir de estímulo à educação e ao desenvolvimento. E a frase básica a ser escrita poderia incluir também um compromisso com a honestidade no exercício dos mandatos. A Constituição diz que analfabeto pode votar mas não pode ser eleito