Editoriais
Sexta-feira, 13 de Março de 2009, 20h:54
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Paradoxos históricos
A crise econômica global tem motivado o governo brasileiro a recorrer a providências emergenciais com o objetivo de atenuar suas consequências, mas serve para tornar ainda mais evidentes alguns paradoxos históricos. Entre os disparates, estão desde os custos exorbitantes da contratação no mercado formal até os elevados spreads a diferença substancial entre o custo da captação para os bancos e os efetivamente cobrados do tomador final, além de uma carga tributária que se eleva a cada ano. O enfrentamento adequado das atuais dificuldades e de outras que, eventualmente, vierem a surgir, depende de ações eficazes contra os problemas, mas também de medidas destinadas a combater de vez alguns desses disparates. As deformações, como enumera o cientista político Murillo de Aragão, começam com o fato de o Brasil ser um país com preços caros e salários baratos, devido principalmente à intermediação. Diante de tantos contrassensos, não basta apenas combater a taxa de juros ainda excessivamente elevada, mesmo depois da retomada da política de redução gradual, sem atacar o spread, igualmente exorbitante. Mais do que os salários, o que pesa mesmo nas contas das empresas são os custos indiretos da contratação. Como se tudo isso não fosse suficiente, há ainda uma carga tributária que, além de excessiva e ser assegurada a um custo elevado demais, dá pouco retorno para os contribuintes. Em qualquer momento, mas principalmente nos de recrudescimento de crises, esses fatores funcionam como limitadores da capacidade de reação do setor produtivo. É difícil entender as razões que levam o Brasil a ostentar sem demonstrar qualquer preocupação efetiva de alterar o quadro o maior spread do mundo, equivalente a 11 vezes o dos países desenvolvidos. No mercado formal de trabalho, o empregador chega a arcar com um custo superior a 100% do salário do funcionário, entre contribuições sociais, remuneração de dias não trabalhados, licenças e incidências cumulativas. E a carga tributária, exorbitante quando comparada à de qualquer país desenvolvido, vinha subindo ainda mais a cada ano, antes de o poder público decidir aliviá-la em alguns casos específicos, como parte da estratégia de conter as consequências da desaceleração da atividade econômica. No Brasil, portanto, qualquer estratégia articulada contra os efeitos internos da crise econômica mundial precisa atacar simultaneamente entraves como os spreads elevados, o alto custo do emprego e a carga tributária escorchante. O problema, no caso do spread, é vencer resistências poderosas, que a continuidade dos altos lucros dos bancos, mesmo na crise, deveria facilitar. O restante depende do andamento de reformas como a tributária, já encaminhada ao Congresso, e a trabalhista, que os políticos, infelizmente, parecem preferir tratar apenas em tese, sem se comprometer em torná-las realidade. Brasil é um país com preços caros e salários baratos