Editoriais
Terça-feira, 20 de Março de 2012, 22h:10
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O trem que não apita
Oficialmente, o projeto da Ferrovia da Integração Centro-oeste (Fico) integra o pacote de obras do setor de transporte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). No começo de 2010 o anúncio de sua construção foi recebido com euforia por políticos e produtores rurais ao longo de seu trajeto de 1.638 quilômetros entre Campinorte (GO) e Vilhena (RO) cruzando o Vale do Araguaia, Médio Norte e o Chapadão do Parecis no sentido leste-oeste. Na prática, o projeto da Fico demonstrou que não tinha consistência. Sob o argumento de suspeita de corrupção na cúpula da estatal Valec responsável pela construção a União simplesmente a abortou. Transcorridos 23 meses da audiência que a apresentou às autoridades e ao povo mato-grossense num evento em Água Boa, tudo que resta da Valec naquela cidade é um modesto escritório em prédio alugado. Quando da apresentação da Fico em Água Boa e pouco tempo antes, em Lucas do Rio Verde, a Valec revelou que até o final de 2011 seria construído o trecho de 1.040 quilômetros entre Campinorte e Lucas do Rio Verde, e que o orçamento da obra foi estipulado em R$ 4,1 bilhões do PAC. A mesma estatal acrescentou que o trecho subsequente, de Lucas a Vilhena, com 598 quilômetros consumiria R$ 2,3 bilhões da mesma fonte e que seria executado em até dois anos e meio. A construção da Fico criaria um corredor leste-oeste na região central do Brasil, para alimentar a Ferrovia Norte-sul, que liga Anápolis (GO) ao porto em São Luís, no Maranhão, e que avançará até o cais em Belém, no Pará. Esta obra daria maior competitividade às commodities rondonienses e mato-grossenses, porque além de mais seguro o transporte ferroviário é bem mais barato que o concorrente rodoviário. A obra da Fico morreu no papel e os diretores da Valec que supostamente teriam cometido atos ilícitos não sofreram nenhum tipo de condenação, à exceção da perda dos cargos, como tradicionalmente acontece no Brasil da impunidade. A única penalização recaiu sobre a economia na área que deveria ser eixo de influência da ferrovia. Na tentativa de apurar o que se esconde realmente por trás da suspensão do projeto e em busca de saída para sua retomada, a Comissão de Infraestrutura (CI) do Senado realiza audiência pública, amanhã, em Brasília. A audiência foi requerida pela presidente da CI, a senadora tucana Lúcia Vânia, de Goiás, e por seu colega de bancada Pedro Taques (PDT). Está prevista a participação das bancadas federais dos três estados diretamente interessados na obra e, mais especialmente ainda, do senador Blairo Maggi (PR), que é vice-presidente da CI. A audiência não terá nada de excepcional. Será mais um grito de Mato Grosso por seus interesses na esfera pública. Mesmo assim, pela relevância do tema que será abordado, espera-se que o governo federal por seus representantes explique o descarrilamento do projeto e o que se pode fazer para limpar os trilhos dando passagem ao trem que teima em não apitar no Araguaia, Médio Norte e no Chapadão do Parecis. Será mais um grito de Mato Grosso por seus interesses na esfera pública