A recomendação de oficiais da Aeronáutica para que a CPI do Apagão não divulgue os dados constantes na caixa-preta do Airbus acidentado, mesmo que tenha a intenção de manter a prudência com que esse tipo de informação deve ser tratado, não é nem oportuna nem condizente com a expectativa da nação. O próprio presidente Lula prometeu que tudo seria esclarecido a partir das informações da caixa-preta. A comoção popular que se seguiu ao maior acidente aéreo na história do Brasil e a indignação com a persistência de uma crise que já dura 10 meses fazem com que a transparência com os dados sobre causas da tragédia seja uma exigência óbvia e, no caso, recomendável. Está em causa a própria confiabilidade de um transporte estratégico para o país. Por isso, a reserva recomendada pelo brigadeiro Jorge Kersul Filho, chefe do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos, só se justifica para aquelas informações cujo sigilo possa ser indispensável para prosseguimento da apuração, aquelas que prejudicariam as famílias das vítimas ou aquelas, claro, sobre as quais eventualmente incida restrição determinada por lei. O direito que a sociedade tem às informações é uma extensão do próprio direito à segurança e à vida. A recomendação dos responsáveis pela investigação deveria, pois, ser a de abrir às famílias enlutadas e à sociedade todas as informações - com exceção para aquelas das quais, frente a um critério legal ou de bom-senso, as normas e a prudência exigirem o contrário. Entende-se a resistência das áreas militares em abrir as informações do relatório das caixas-pretas aos deputados e senadores das CPIs em andamento. A experiência recente de politização das comissões de inquérito não traduz nem seriedade no uso das informações nem credibilidade quanto a seus resultados. Houve um mau exemplo que está agora cobrando seu preço. No caso das investigações sobre o trágico acidente do vôo 3054, o que está em causa na apuração dos fatos e na divulgação é a própria imagem das empresas aéreas, dos serviços de infra-estrutura e de organização e controle por parte dos órgãos competentes. O país precisa ficar seguro de que uns e outros são confiáveis. O caminho para a reversão de uma imagem deteriorada não é certamente o de impedir que os fatos cheguem ao conhecimento da população, mas o contrário. As autoridades devem esta explicação à sociedade brasileira, não apenas para responsabilizar quem cometeu incúria com vidas humanas, mas também para que dramas semelhantes não voltem a ocorrer. Nunca mais voltem a ocorrer! O direito que a sociedade tem às informações é inalienável