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Editoriais
Quinta-feira, 27 de Maio de 2010, 21h:50

Nós e a África do Sul

Valentes, mesmo mortalmente feridos os zulus avançavam com suas lanças sobre os soldados ingleses e os traspassavam. Numericamente superiores aos invasores esses guerreiros levaram seus inimigos colonizadores em busca de armas mais potentes. Assim, surgiu o calibre 44 para as carabinas do British Army em substituição ao modelo anterior, o velho tresoitão. É para a terra desses valentes que Mato Grosso se deixou transportar espiritualmente e, ontem, desembarcou juntamente com a Seleção Brasileira que tentará o hexacampeonato mundial de futebol. Mato Grosso respira Copa do Mundo. Pelas ruas de Cuiabá o clima é de mundial. Camelôs invadem as calçadas com bandeiras e alegorias alusivas ao evento que bota o inconsciente coletivo nacional dentro de quatro linhas como se cada cidadão fosse jogador escalado para o time da Pátria de Chuteiras. Claro que Mato Grosso acredita na conquista do título. O fato de não contarmos mais com os dribles desconcertantes de seo Mané, com os chutes certeiros e potentes de Rivelino, os lançamentos com maestria de Gérson, a folha seca de Didi, o desarme do mestre Nilton Santos, o jogo sem bola de Tostão, a aura de Pelé é parte do tempo ditado pelo relógio cronológico, mas nem isso esmorece o mato-grossense. O momento é de gritar gol! Olé! Braasssil! Agora, a África do Sul do povo Zulu e de seus irmãos de outras tribos é terra livre, solo abençoado por Desmond Tutu, berço da liberdade ensinada por Nelson Mandela que sepultou de vez o apartheid, é também o grande estádio para onde migra em pensamento o coração mato-grossense. Mato Grosso busca tabelinha com o time de Dunga, como se em cada peito batesse uma jabulani ao ritmo do compasso de jogo que faz dos Canarinhos verdadeiros deuses com poderes cíclicos de 90 minutos da mais pura garra, magia e o fino da malandragem. Que em espírito Mato Grosso permaneça na África do Sul. É preciso viver intensamente o encantamento do futebol, como se o apito do árbitro fosse edito real para que o povo se encontre com a paz, com a vida em sua plenitude, com a unidade nacional sem desníveis sociais. O momento África do Sul é o ponto alto da felicidade mato-grossense, mas nem ele pode nos desviar da obrigação do exercício da cidadania no grave momento que atravessamos, com instituições seriamente abaladas a ponto de fazer o indivíduo refletir se vale ou não a pena a obediência civil e a duvidar do funcionamento das engrenagens constitucionais. Que espiritualmente o mato-grossense permaneça na terra da Copa do Mundo de 2010, mas de modo que a paixão pelo futebol não interfira no resultado que a moralidade busca e a legalidade exige. O grito de gol explodirá espontâneo na voz do povo. Resta-nos torcer para que nas gargantas sufocadas pelo medo e a desconfiança brotem os brados roucos das ruas pelo Mato Grosso que entre quatro paredes é ferido mortalmente por figurados calibres maiores do que o 44 descoberto pelos ingleses para matar o povo Zulu. "Que a paixão pelo futebol não interfira no resultado que a moralidade busca e a legalidade exige"

Edição EDIÇÃO 16962




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