Editoriais
Sexta-feira, 22 de Junho de 2007, 20h:05
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Naufrágio do Senado
A demora de integrantes do Senado em se render à gravidade das denúncias de envolvimento de seu presidente, Renan Calheiros (PMDB-AL), com o lobista de uma empreiteira encarregado de pagar suas contas foi tanta, que agora não basta apenas encontrar uma saída menos traumática para o comandante do Congresso. O próprio Senado precisa descobrir uma forma de minorar os efeitos do naufrágio provocado pelo excesso de corporativismo de seu Conselho de Ética, que ameaça levar para o fundo quem não saltar fora a tempo. O próximo passo será convencer a sociedade de que, depois de se expor com todas as suas deformações na tentativa obstinada de abafar o caso às pressas, sem o tempo necessário sequer para apurar contradições aberrantes da defesa, o que restar da Câmara Alta continuará sendo imprescindível para o país e merecedor de confiança. Desde que o presidente do Senado ocupou a mesa da Presidência na tentativa de restringir a um episódio de foro íntimo o fato de o pagamento da pensão de uma filha fora do casamento estar sendo feito por meios inusuais, em dinheiro vivo de origem mal-explicada, uma verdadeira tropa de choque saiu a campo no esforço de abafar o caso. O que a sociedade presenciou a partir daí foi o espantoso amadorismo do próprio Conselho de Ética, o despreparo de suplentes de senadores cuidadosamente escalados para integrá-lo, pelo fato de não deverem explicações aos eleitores, e a vocação para o corporativismo e para chicanas. Não faltaram nem mesmo denúncias de tentativas de intimidação de senadores, conferindo ao caso ingredientes de alto interesse popular, que vão da relação fora do casamento à suposta circulação de elevadas somas de dinheiro em sacolas, tudo até agora sem explicações minimamente convincentes. O Senado, que havia resistido diante de denúncias mais recentes, como a do mensalão, deixou evidente no episódio atual o quanto reluta em admitir suas próprias mazelas. As restrições ficaram mais claras a partir da afirmação do corregedor Romeu Tuma de que seu desejo era absolver o presidente da Casa, e a partir do momento em que o caso se encaminhou para o terceiro relator, em tempo recorde. Felizmente, a repercussão dos fatos levou senadores comprometidos com a ética a entrarem em ação, preocupando-se não em salvar um colega a qualquer custo, mas em preservar a imagem do Senado como instituição. O processo de depuração ética já havia chegado aos partidos, a organismos do governo e à Câmara dos Deputados. Por surpreendentes caminhos, alcança agora também o Senado. Nas entrelinhas de várias declarações do próprio presidente do Congresso e no vazamento de informações sobre senadores, insinua-se que há muito mais a ser esclarecido. Sob pena de que o Senado perca sua credibilidade, submergindo totalmente, as denúncias contra o seu presidente - e contra outros senadores, se houver - precisam se processar com absoluta transparência e sem protecionismos. O processo de depuração ética que havia chegado aos partidos alcança agora também o Senado